Corrupção, consenso e política linguística

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     Em textos anteriores (“Língua, Mercado e liberdade”, “O conflito linguístico só tem uma saída”, “Contra a utilização dos ‘direitos linguísticos'”, “Bilinguismo zumbi e crise sociolinguística”) tenho apontado que a história da política linguística na Galiza se deve examinar como a articulação de três dicotomias entrecruzadas: o âmbito público frente ao privado; a dimensão individual frente à coletiva; e os direitos frente aos deveres. Hoje, a máxima expressão desta dialética múltipla na crise sociolinguística é o conflito entre deveres públicos coletivos a respeito da língua e direitos privados individuais, por exemplo os “direitos” dos e das estudantes do nosso sistema educativo.

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A língua e o triunfo do Eu

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     Por recomendação dum amigo, estou a ver estes dias a série de quatro documentários The Century of the Self (“O Século do Eu”), de Adam Curtis, o mesmo documentalista do magnífico The Power of Nightmares sobre a invenção propagandística do “terrorismo islâmico”. Na série sobre o self, Curtis revela a poderosa implicação das ideias de Freud, Reich e outros psiquiatras na mercadotecnia comercial e política de massas nos EUA, no Reino Unido, e (por extensão imperial) eu diria que em todo o mundo conhecido, que é aquele aonde chega o cadáver de Michael Jackson. No episódio três, Curtis explica a viragem face ao mais atroz individualismo que deu uma inesperada vitória a Ronald Reagan em 1980 nos EUA e inaugurou o mal chamado “neo”-liberalismo que hoje sofremos.

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O conflito linguístico só tem uma saída

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     O conflito linguístico é inerente às sociedades de classes, porque não é um conflito linguístico: é um conflito de classe, em vários sentidos amplos, de grupos em controlo de diversas peças dessa perversa maquinaria que é um modo de produção essencialmente injusto, ainda com todas as correções que se tenham introduzido. Não quisera simplificar o problema negando que a questão identitária tenha um lugar importante no conflito linguístico na Galiza. Mas a questão identitária também consiste num conflito entre grupos. Quando a supervivência material inça a vida quotidiana, qualquer elemento cultural ou social suscetível de ser apropriado, capitalizado e distribuído diferencialmente cobra o seu papel classificador. Certo, a língua não é apenas “qualquer” elemento, mas a lógica da igualdade intrínseca dos humanos deveria levar-nos a questionar por que, em ocasiões, em sociedades específicas, a língua se torna em praticamente o mais importante dos elementos diferenciadores. O combate simbólico pola língua na Galiza é velho, tão velho como a incapacidade geral de a gente assumir, precisamente, a evidência dessa realidade coletiva, além dos nossos desejos, e ainda contra as mais puras das nossas ideologias que nos dizem que o coletivo nunca deveria se impor contra a liberdade.

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Bilinguismo zumbi e crise sociolinguística

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     No seu blogue do New York Times, o prémio Nobel de Economia Paul Krugman introduz a expressão “zombie ideas” para se referir àquelas más propostas económicas já mortas que ressuscitam periodicamente. Aprendo a imagem numa entrevista que lhe faz Amy Goodman no inimitável noticiário Democracy Now!, e aproveito-a sem pudor. O “bilinguismo zumbi” do meu título não se refere aos milhões de pessoas galegas que conhecemos e falamos duas (ou mais) línguas, mas às ideias zumbis sobre a nossa crise sociolinguística que a história mata periodicamente mas que levantam cabeça à mínima, com sedução de ultratumba, e que haverá que voltar a matar com paciência. O “bilinguismo harmónico” de Fraga Iribarne ressuscitou há pouco no corpo da “amabilidade linguística” de Alberto Núñez Feijóo. Na realidade, são novas versões da velha ilusão do convívio entre línguas, que nunca funcionará na Galiza (entre línguas) até que se destaque uma outra maneira de articulá-lo.

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A Revolta do Capitariado

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Um espectro ronda polo mundo: o espectro do capitalismo. Todas as legiões das Forças do Trabalho, unidas em santa aliança com o Feminismo e o Ecologismo, andam à caça do capital, a quem escravizam com as suas exigências cada vez mais totalitárias: salários “dignos”, “estabilidade” laboral, vacações pagas, menos de 16 horas de trabalho por dia, “igualdade de género”, uma “idade mínima” para trabalhar… E que partido não lançou alguma vez aos seus adversários de direita ou de esquerda a alcunha de “capitalista” com intenção de infâmia? Mas já é hora de falar. Perante este acossamento, que se repete ciclicamente, o subjugado capitariado mundial (o único que possui é o grande capital!) rebela-se pouco a pouco, a funcionar em rede, como todo bom ativismo clandestino. Timidamente, as empresas mais ameaçadas pola Força de Trabalho (Boeing, Toshiba, Nintendo, Renault, Citroën) começam a reagir e são capazes de impor a purga laboral que a revolta precisa: não se pode consentir que os trabalhadores continuem a roubar. O mal chamado “despedimento” é o último tímido direito que lhe resta ao capitariado dentro do Estado Social. Talvez muitas vezes o despedimento seja só simbólico, pois historicamente a Força de Trabalho, até quando é descabeçada, regenera-se como uma peçonhenta ténia: da chamada “reserva” surgem logo milhares de militantes laborais treinados nos campos das oficinas do desemprego (verdadeiros “libertados” na sombra) que ao começo fingem aceitar salários mais baixos, só para procurarem impor a sua hegemonia de “salários dignos” quando o capitariado está mais débil. A turva tática, desenhada nas madrassas da Escola de Chicago, não por conhecida deixou de funcionar durante dous séculos. Mas desta vez o capitariado parece assumir por fim o seu primário papel histórico em criar um mundo novo totalmente desigual: De cada um, segundo a sua incapacidade; a cada um, segundo o seu poder militar.

Porque, polas imposições da Força de Trabalho, os ganhos do capitariado são cada vez menos imensos. A situação do capitariado mundial está a reverter a índices do velho colonialismo, onde o único que possuía eram uns milhões de hectares, umas matérias primas, algo de ouro, umas empresas téxteis, e uns quantos escravos. A japonesa Nintendo, por exemplo, declara ter tantas perdas nos seus ganhos (“pérdidas en sus ganancias”, informa o jornal espanhol Público) que, perante a angústia, lutou até conseguir reduzir o sangrante esbanjamento que implica pagar a mão de obra. E, igual que nela, em Boeing, em Renault, nas empresas mais ativas que sofrem o acossamento, por fim parece ter surgido a consciência de que o salário é um roubo ao Capital, legitimado polo Estado. Cada mês, ou cada quinzena, ou cada dia, milhões de “trabalhadores”, “operários” ou outros eufemismos que ocultam o seu papel estrutural de domínio, assaltam as arcas das empresas e levam para a casa centenas de milhões de euros em soldos como se até a isso tivessem direito, amparados nas “constituições democráticas” e nos “convénios coletivos”. O salário atual rompe o equilíbrio da lógica da empresa, que é o lucro sem mesura. É certo que nem o mais revolucionário capitalista nega que alguma forma de salário deva existir. Mas, como explicou Xram em Sad Latipak, o salário no Estado Social apropria vilmente o mais-valor que pertence ao capitariado polo seu hercúleo esforço de transformar o nada do papel-moeda falso em extrema opulência para uns poucos.

Mas a vanguarda do capitariado está a reagir, a exercer valentemente o seu direito conquistado ao despedimento coletivo, até na versão selvagem e ilegal, na melhor tradição combativa prévia à domesticação que sofreram as Confederações de Empresários depois da Segunda Guerra. Maciçamente, com o despedimento, o capitariado começa a impor o seu inalienável direito natural a que os seus ganhos não sejam roubados polo injusto preço do trabalho. Hoje talvez seja só uma grande empresa quem ouse, mas amanhã serão duas, depois dez, cem, dez mil, e em pouco tempo todo o capitariado mundial, desde o mais consciente até o pequeno capitalista que sofre alienação ideológica de classe e acredita ser “pequeno comerciante”, será capaz de recuperar o que lhe pertence e estabelecer uma nova ordem, sempre apoiando-se inteligentemente no próprio aparelho do Estado Social que o oprime. Como escreveu Nestor Kohan em “Icsmarg y Xram: hegemonía y poder en la teoría xramista“:

“Mesmo dando conta de todas as suas limitações, devemos reconhecer ao Manifesto Capitalista o facto de destacar na sua época (no meio de um conflito de classe europeu, depois mundializado) que o Estado jamais é neutral, e que portanto o capitariado revolucionário não pode pretender utilizá-lo ‘com outros fins’… mas deixando-o intacto“.

Porque, se foi o Estado Social que criou esta inaturável situação para o capitariado, que mantenha ele as legiões de “trabalhadores” desempregados, e que inunde as arcas do Capital com papel-moeda falso. Que pague o corrupto Estado o que deve, e quebre de vez!

O capitariado não se rebaixa a dissimular as suas opiniões e os seus fins. Proclama abertamente que os seus objetivos só podem ser alcançados pola derrubada violenta de toda a ordem social existente. Que as classes populares tremam à ideia duma revolta capitária! O capitariado já nada tem a perder: tem um mundo a ganhar.

Uma língua difícil para a Galiza

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Polo pouco que sei sobre as relações entre essas abstrações que são “a língua” e “a sociedade”, qualquer língua escrita é muito difícil de dominar. Frente à fala, que se vai aprendendo como parte do processo de comunicação (que inclui outras cousas), a língua escrita acarreta anos de aprendizado formal, desde a caligrafia até à prosa mais elaborada. O maior ou menor número de anos é circunstancial para compreendermos em que consiste o processo de aprendizagem da escrita: consiste no estabelecimento de critérios de classificação social entre a gente “que sabe” e a que “não sabe”. Isto é assim na China com os seus milhares de caracteres, no Japão com os seus quatro sistemas gráficos, ou no crioulo papiamentu com a sua ortografia pretensamente “fonémica”. Ou, evidentemente, na Galiza. Isto é assim em qualquer sociedade de classes.

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Língua, Mercado e liberdade

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1. A eliminação do coletivo

Num texto de 1998, Pierre Bourdieu (“L’essence du néolibéralisme”, Le Monde Diplomatique, Março 1998; acesso na Internet: http://www.monde-diplomatique.fr/1998/03/BOURDIEU/10167 ; existem traduções portuguesas como a de Informação Alternativa, http://www.infoalternativa.org/teoria/teo007.htm) lembra-nos o principal procedimento do liberalismo moderno (o duvidosamente chamado “neoliberalismo”, isto é, o ultraliberalismo que quer laminar as “conquistas” sociais e laborais) na sua procura da Utopia do Mercado: a extirpação gradual de todo o coletivo, amiúde com a rendida conivência das forças do progresso. A recente ofensiva discursiva de um setor do liberalismo programático español contra as políticas e legislações orientadas à manutenção (também programática) das línguas “españolas” não castelhanas do Reino pode ser examinada dentro deste contexto. Os discursos do fenómeno Galicia Bilingüe, o Manifiesto por la lengua común –com as aderências que obteve na Galiza– ou, sobretudo, o mais recente relatório do Club Financiero Vigo (CFV) exibem uma clara base argumental política compartilhada. Destes, o relatório do CFV, polo prestígio da sua fonte e polo debate que está a suscitar, merece ser comentado como paradigmático. O documento, com data 2 Setembro 2008, é editado em galego e em español, e intitula-se Política lingüística: Unha visión empresarial (Cadernos para o Debate 12) / Política lingüística: Una visión empresarial (Cuadernos para el Debate 12). Porém, na web do CFV na altura (9 Setembro) só está disponibilizada em PDF a versão em español, que é, consequentemente, a que utilizarei: http://www.clubfinancierovigo.com/archivos/archivo_333_2481.pdf. / http://www.clubfinancierovigo.com/cuaderno.asp?id=333&lang=es .

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Propriedade privada

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As mulheres são propriedade privada dos varões. Quando já não servem para as suas funções no sexo, na cozinha, na submissão simbólica, são sacrificadas. São sacrificadas como um animal que se possui: como um cão rebelde, como um cavalo velho. Os donos sacrificam-nas com lume, com facas, com balas, com as mãos, com pedras para esmagarem os seus cérebros. Como em muitos lugares o sacrifício privado é ilegal, alguns varões entregam-se aos seus serviços de segurança. Nalguns lugares há juízos para garantir o sacrifício legal da propriedade privada já inservível.

Os operários e operárias são propriedade privada das empresas. Quando saem mais caros que o benefício que produzem (como uma amante velha, como um cavalo doente) são sacrificados, retirados do trabalho, dando-lhes fome por alimento, fechando as factorias. Os operários são abandonados à intempérie como um cão que uiva no monte por voltar ao seio do seu amo. Sacrificar operários dando-lhes fome costuma ser legal, desde que passem a ser propriedade privada directa do Estado, do seguro de desemprego.

Os países, as gentes e os territórios são propriedade privada dos Estados. A Galiza ou Euskadi são propriedade privada do estado monárquico, que os aluga a gente que por isso se chamam galegos ou bascos. Quando os ocupantes que alugam os países querem tomá-los, o Estado pode chamar ao serviço do segurança, ao exército. Às vezes, muitos inquilinos são sacrificados com balas, com paus, como se sacrifica um cão rebelde. Às vezes, uns poucos inquilinos varões empreendedores alcançam a tomar para si os países em aluguer, e os países, gentes e territórios passam a ser propriedade privada dos novos varões, dos novos Estados, que voltam a alugá-los.

O petróleo, o gás, o ar, a água, o sal, o pão e o arroz são propriedade privada dos varões, das empresas e dos Estados. Quando resulta caro demais obter ou produzir o gás, a água ou o arroz com as mulheres, homens e meninhos que trabalham nos campos, florestas e desertos alugados, os exércitos dos Estados das empresas dos varões sacrificam-nos com balas, com lume, com mãos e com facas, esmagam-lhes o cérebro com metralha, deformam a sua visagem com fósforo, desmembram-nos para fazerem ecrãs e cabeleiras sintéticas, produzem baralhos dos seus rostos, vídeo-jogos da sua nudez, megawatts dos seus cadáveres nas duches crematórias.

De tudo isto há imagens e palavras, diariamente. E as imagens e palavras que chegam às casas e às cozinhas onde as mulheres fervem arroz para os seus donos com restos de animais sacrificados, são propriedade privada das empresas e dos Estados. Quando as imagens ou palavras se rebelam e pensam, quando são inservíveis porque dizem como querem a verdade do extermínio, os Estados sacrificam-nas em altas labaredas, cortam as páginas com facas, riscam as frases imigrantes e os acentos rebeldes com tinta de sangue, decapitam as fotografias, torturam o significado. Os juízes e os exércitos dos Estados fecham em Guantánamo as páginas que fazem ritual greve de fome, desterram para o monte a uivarem como cães as imagens certas do extermínio.

As mulheres, a força de trabalho, os animais, os territórios, o gás, a água, o arroz, as imagens e as palavras têm todos nomes únicos, cifras, códigos, facturas, certidões de propriedade, vias de distribuição, composição interna, dimensões, peso, embalagem, modo de emprego, data de caducidade, lugar exacto para serem utilizados nas casas e nas indústrias, nos leitos, na corte, na cadeia de montagem, no sofá, nas estantes, no cérebro, lugar exacto para botar os seus resíduos, nos cemitérios, nos matadouros, nas lixeiras, nos esgotos, nos desertos, nas estantes, no cérebro.

E, afinal do seu ciclo, cada espécime de propriedade privada das pessoas e dos Estados torna-se na mente depois do seu uso escrupulosamente no mesmo: numa solitária reacção orgânica e num furtivo vágado irreal, como se tudo isto se tratasse apenas de um mundo alegórico indescritivelmente pavoroso que por ventura não existe.

Guerra Civil, Franquismo e língua

Publicado em Pensa Galiza • O texto faz parte dum comentário longo no Foro aberto do Portal Galego da Língua

Penso que há dous argumentos comummente aceites sobre as razões para a Galiza carecer na altura de elites galegófonas poderosas comparáveis às de outros países do Estado Espanhol: 1) A penetração “de acima para abaixo” do espanhol nas classes sociais galegas desde (agharra-te!) a Idade Média: aristocracia, burguesia, classes trabalhadoras (o processo é conhecido). E 2) os efeitos mais recentes da “repressão Franquista” sobre os usos públicos das línguas-não-Espanhol do estado.

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Matar mulheres pobres com palavras

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Vi várias vezes o vídeo do assassínio de María Rosario Endrinal Petit a mãos de Ricard Pinilla, Oriol Plana e Juan José M. em 16 Dezembro 2005 em Barcelona, para procurar compreender melhor os signos da barbárie. No acto, paradigmático de uma vesânia diária assumida polos mentecaptos como “incidentes isolados”, concentram-se três contrastes básicos de sentidos que articulam a dominação na sociedade do Capital (polo menos nesta; talvez noutras também, dirão os ultraliberais; mas eu não vivo noutras, e outras barbáries não exculpam esta). Um cabeçalho assim resumiria os eventos: Três homens jovens de classe meia-alta assassinam uma mulher maior pobre. Três contra uma, homens contra mulher, juventude contra madurez, mais ricos contra mais pobre. Maiorias, guerra de género, guerra de classe, guerra de corpos. Números, testosterona, força, armas: tudo encaixa. Só falta o elemento étnico, presente noutros ataques nas ruas das metrópoles do Reino.

Dous jovens entram num caixeiro automático de La Caixa, baluarte do capital nacional catalão, onde a mulher se dispunha a dormir. Insultam-na, agridem-na, um terceiro mercenário incorpora-se ao ataque, e finalmente os três matam-na prendendo-lhe lume com dissolvente. A câmara de “segurança” vigia que ninguém roube euros: está desenhada para proteger a propriedade. A vítima, sem dúvida, cometera muitos delitos: Era mulher, era desapossada, não ia limpa, e okupara com o seu corpo o recinto sagrado do caixeiro automático. Durante um tempo, ela conseguiu refugiar-se dos atacantes fechando-se por dentro. Mas enganaram-na, fingindo que um terceiro jovem queria entrar para levantar dinheiro. Cash, recendente cash. Ela acedeu ao inviolável direito (era, também, ex-trabalhadora de La Caixa) e abriu. Isso foi a sua tumba. As imagens revelam o rosto mirrado da assassinada, os rostos límpidos e penteados de dous dos homens. O terceiro rosto, de 16 anos, é mantido oculto informaticamente. Será por “respeito à imagem do menor”, é lógico: O pretenso assassino tem pretenso rosto. Os verdadeiros terroristas, de rosto em cartaz, são sempre estrangeiros, bascos e “moros” infiltrados no corpo nacional. E, além, aos 16 anos não se mata: brinca-se. Mostrar o rosto do assassino seria vulnerar os seus direitos. O cadáver, porém, já não os tem.

Os cépticos dirão que, mais uma vez, leio demais nos actos sociais. O assassínio poderia ter acontecido noutro lugar. O morto poderia ter sido um homem. Os assassinos poderiam ter sido também esfarrapados. A vítima poderia ter sido rica. Isto também acontece. Certo. E esses actos também significam. Mas há neste crime uma sobredose de sentidos sociais que o singulariza. Ele materializa com cheiro a carne queimada as palavras que amiúde escutamos e lemos, em distendidas conversas de café no trabalho, em jocosos comentários jornalísticos que se permitem dar a volta aos discursos progressistas como se estes já estivessem superados pola história, ou em nojentas mensagens nos foros de grilos da Internet, incluído este portal. Embora as palavras não causem o mundo, há quem diga, de ópticas diversas (Teun Van Dijk, , Ruth Wodak, Noam Chomsky, George Lakoff, Naomi Klein), que elas abrem as portas aos actos mais brutais. Ou que, polo menos, a relação entre actos, ideias e palavras é densa, e merece ser examinada. Localizemos onde localizarmos a fonte do assassínio (na cognição, nos discursos, nas relações materiais, em todos estes lugares), o facto é que a misoginia violenta, o classismo e o racismo proliferam cá e lá disfarçados de crítica pós-crítica, como se hoje em dia ser inteligente consistisse em, torpemente, esforçar-se por ir além dos discursos da igualdade. E os ultradireitistas do sociodarwinismo liberal esgrimem estúpidas etiquetas acusatórias, como a de “buenismo”, com que pretendem conjurar o seu monstruoso modelo económico e social, recriminando às vozes críticas de que estão a lamentar-se inutilmente. De que não vale a pena gritar. De que colocar-se eticamente apenas de um lado da geometria da dominação social é outra forma de paternalismo, porque (supõem os liberais) a glória da sofisticação na análise é mais importante. Já sabemos: para eles, é a pretensa sofisticação, não a crítica ética, que confere esse triste brilho fálico que procuram. Porque, afinal, sempre haverá mulheres pobres, e sempre haverá quem as mate. Afinal, algo teria feito a vítima. Afinal, os homens também são vítimas. Afinal, as mortas também são culpáveis.

Esse falso cepticismo, esse cinismo, é nazismo em estado puro. Ele proclama a supremacia dos corpos (masculino contra feminino, rico contra pobre, “branco” contra “preto”, “guapo” contra “feio”, “macho” contra “afeminado”), distorce o sentido da diferença, e glorifica a desigualdade económica e social a apresentá-la como uma insuperável evidência histórica. Também os três assassinos de Barcelona faziam piadas xenófobas, classistas, misóginas e homófobas nas suas conversas quotidianas. Faziam-nas como se aqui não se passasse nada, como se houvesse que rir sempre as graças dos nazis de qualquer origem, as que lemos amiúde cá e lá. Daí a assassinatos como o de Rosario Endrinal só há um par de passos. Hitler começou com palavras deglutíveis para a sua sociedade. Ser nazi não é só levar uma esvástica tatuada no peito: é também não ter mais nação nem mais língua do que um ódio de macho amargurado contra o poder da diferença, um projecto de extermínio. Nazis fora da História, já.