A República vai vencer

11 de setembro de 2018, Diada Nacional de Catalunya

     O desenvolvimento do processo político catalão contém uma caraterística central, nos discursos e nas práticas, que aponta para uma dada resolução futura. A caraterística é a sua ampliação, o alargamento progressivo tanto da sua base discursiva quanto, correlativamente, da sua base social, e do seu âmbito de relevância. E a resolução futura pode ser a consecução da República em, polo menos, Catalunya.

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La Transició

          Os paralelos entre o processo soberanista catalão e a chamada Transición espanhola são tão notáveis que surpreende não terem sido, polo menos, comentados. Dentro duma dada ordem jurídica que se quer superar (Leyes Fundamentales del Reino; Estatut d’Autonomia de Catalunya), o parlamento eleito com um dado grao de limitações da representatividade por circunstâncias históricas (Cortes Españolas; Parlament de Catalunya) aprova por maioria um texto (Ley para la Reforma Política de 1976; Llei de Transitorietat Jurídica i Fundacional de la República de 2017) que frontalmente choca com a legislação de rango máximo, e suspende-a. Explicitamente ou não, ambas leis estabelecem a “excepcionalidade jurídica” necessária para não implosionar o processo. O objetivo é que o correspondente sujeito político soberano (“pueblo español”; “poble catalá”) se dote duma nova ordem constitucional. Para isto, instrumentalmente, o parlamento catalão deve aprovar também uma Llei del referèndum d’autodeterminació de Catalunya, mas esta não altera em nada a ordem jurídica nem a subordinação de Catalunha ao Estado Espanhol.

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Treze Tweets Sobre Carrero Blanco Que Não São Piada. Dedicados à metáfora de Cassandra

Se Carrero Blanco não tivesse sido assassinado, hoje não seria delito fazer piadas sobre o seu assassínio: não teríamos Audiencia Nacional, herdeira do Tribunal de Orden Público fascista.

O assassínio de Carrero foi uma alegria emocional mas um erro político. Isto é: um sucesso do Franquismo, que assim se perpetuou na Monarquia.

Assassinar o terrorista Franco teria sido mais efetivo. Mas um regime fascista nunca se suicida. É melhor eliminar alguém mais débil da cadeia: Carrero.

O serviço secreto (SS) sabia o que se preparava para Carrero. O regime EUA sabia o que se preparava para Carrero. Sabiam alguns partidos o que se preparava?

Carrero não poderia ter continuado o regime como Franco. Era um medíocre burocrata reacionário. Simbolizava o fascismo, mas não era um Franco.

Possivelmente Carrero teria caído com mais força. Alguém pode imaginar que o regime dos EUA não teria interesse na continuidade dum Carrero se fosse possível?

Mas EUA sabiam que Carrero cairia. Era melhor matá-lo. O melhor instrumento?: a ETA, e a conivência duma socialdemocracia queimada e enganada.

Portanto, Panem et Circenses: “Vamos matar Carrrero. E o velho cabrão amigo dele esmorecerá de pena. Saiam à cena Juan Carlos, Areilza, Fraga, Suárez…”

Panem et Circenses 2: “Deixemos pulular os velhos fascistas (Blas Piñar, Girón) como folclóricos: o antídoto necessário para dar a ilusão de mudança”.

E Panem et Circenses 3: “Mas nunca, nunca, deixemos que a gente esqueça quem ganhou a guerra, e por que: porque mantemos ocultos os ossos dos vossos mortos,

enquanto os ossos e a memória dos grandes assassinos são venerados. Eis a maior humilhação. De classe. Não nos importam os vossos «chistes». Não é isso:

é lembrar-vos perenemente que perdestes a guerra, vós e os vossos descendentes. Temos os instrumentos, a polícia, as leis e a ignorância popular,

e, sobretudo, somos España, essa metomínia de fracasso histórico com nome de estado.
(Mas sshh, que ninguém se inteire de que, na verdade, o Rey Felipe está despido)”.

Quem Possui a História?: 1300 Anos, 44 Gerações

Dom Felipe Juan Pablo Alfonso de Todos los Santos de Borbón y Grecia (1): é filho de Sofía Margarita Biktoria Freideriki tis Elládas e de Juan Carlos I Alfonso de Borbón y Borbón (2), filho de María de las Mercedes Cristina de Borbón y Orleáns e de Juan Carlos de Borbón y Battenberg (3), filho de Victoria Eugenie Julia Ena von Battenberg e de Alfonso XIII León de Borbón y Hasburgo (4), filho de Maria Christine Desideria Henriette von Österreich e de Alfonso XII Francisco de Borbón y Borbón (5), filho de Isabel II María de Borbón y Borbón e de Francisco de Asís María de Borbón y Borbón (6), filho de Luisa Carlota Maria Isabella di Borbone e de Francisco de Paula Antonio María de España (7), filho de Carlos IV Antonio Pascual de España e de Maria Luisa Teresa di Parma (8), filha de Louise Elisabeth de France e de Filippo de España (9), filho de Elisabeta Farnese e de Philippe V de France (10), filho de Louis de France e de Maria Anna Christine Victoria von Bayern (11), filha de Ferdinand Maria von Bayern e de Adélaida Enrichette Maria di Savoia (12), filha de Vittorio Amedeo I di Savoia e de Christine Marie de France (13), filha de Henri IV de France e de Maria del Medici (14), filha de Francesco I dei Medici e de Johanna von Österreich, (15) filha de Anna Jagiello e de Ferdinand I von Habsburg (16), filho de Philipp I von Habsburg e de Juana I d’Aragó (17), filha de Fernando II d’Aragó e de Isabel I de Castilla (18), filha de Isabel de Portugal e de Juan II de Castilla (19), filho de Enrique III de Castilla el Doliente e de Catherine of Lancaster (20), filha de John of Gaunt 1st Duke of Lancaster e de Constanza de Borgoña infanta de Castilla (21), filha de María de Padilla e de Pedro I de Castilla el Cruel (22), filho de Maria de Portugal e de Alfonso XI de Castilla el Justiciero (23), filho de Constança de Portugal e de Fernando IV de Castilla el Emplazado (24), filho de Beatriz von Schwaben e de Fernando III de Castilla el Santo (25), filho de Berenguela I de Castilla e de Alfonso IX de Leão (26), filho de Urraca de Portugal e Savoia e de Fernando II de Leão e Galiza, (27) filho de Berenguera de Barcelona infanta d’Aragó e de Alfonso VII de Leão el Emperador (28), filho de Raymond de Bourgogne e de Urraca I de Leão (29), filha de Constance de Bourgogne e de Alfonso VI de Leão el Bravo (30), filho de Sancha de Leão e de Fernando I de Leão el Magno (31), filho de Minadona de Castilla e de Sancho Garcés III de Pamplona el Mayor (32), filho de Jimena Fernández e de García Sánchez II de Pamplona el Temblón (33), filho de Urraca Fernández e de Sancho Garcés II de Pamplona (34), filho de Andregoto Galíndez condessa d’Aragó e de García Sánchez I de Pamplona (35), filho de Sancho Garcés I de Pamplona e de Toda Aznárez reina de Pamplona (36), filha de Aznar Sánchez de Larraún conde d’Aragó e de Onneca Fortúnez (37), filha de Fortún Garcés el Tuerto e de Awriya ibn Lubb (38), filha de Ayab Al-Bilatiyya e de Lubb ibn Musa (39), filho de Assona Íñiguez e de Musa ibn Musa ibn Fortun al Qasaw (40), filho de Onecca e de Musa ibn Fortún (41), filho por uma parte de Fortún ibn Qasi (42), filho do conde hispanorromano ou visigodo Casius (43), convertido ao islamismo, que morreu em 715, e por outra de Asima bint Abd al-Aziz (42), filha de Egilona (viúva do rei Rodrigo) e de Abd al-Aziz ibn Musa (43), filho de Musa ibn Nusair (44), caudilho militar muçulmano, que participou na invasão da Hispânia visigoda em 712.

1300 anos, 44 gerações.

María Dolores, limpadora das defecações diárias de dom Felipe nas casas de banho da sua mansão: é filha de Dalia e de Miguel, campesinos do Equador, filhos de campesinos de Equador, netos e bisnetos de campesinos de Equador, de nomes e origens desconhecidos.

Alguém acredita que os proprietários da História vão abandoná-la?

 

Capa censurada da revista El Jueves. Uma primeira distribuição de 60000 exemplares foi retirada pola publicação, e destruída. A capa foi substituída por uma caricatura do político Pablo Iglesias. O debuxante da vinheta do rei demitiu-se de El Jueves.

 

Deus Uno e Trino

Deus uno e trino, herói uno e trino, rei uno e trino. O império triangular masculino impõe-se desde há milénios sobre a soberania da mente. Dominam as imagens a que, no sossego da inconsciência, rendemos diariamente tributo. Domina essa figura que pode ser simultaneamente severo juiz, pai, assassino, violador. Ele ordena o nosso pensamento triangular. Ele é a presença quotidiana, de que não queremos escapar, porque significaria matá-lo. Matá-lo com a total indiferença. Com a revolta da mente, onde habitam todos os paraísos. Deus e rei, deus e herói, deus e assassino. Criado no sangue, na mitologia do castigo e da vingança. Rei miserável, violador de mentes, homicida, ladrão da liberdade. Órfãs e órfãos, contemplamo-lo como a justificação da nossa própria existência. E justificamos a sua. Sem ele, sem deus, o héroi, o rei tirano, vagaríamos na sombra enfrontados só à pavorosa utopia da igualdade. Deus, rei, herói, ele foi enviado dum lugar distante a este reino. Da terra palestina, dum planeta a extinguir-se, dum país estrangeiro. E foi enviado polo seu pai para salvar-nos. E fez-se humano entre nós durante anos numa humilde granja americana, ao lado do Jordão, numa academia militar. E teve de pais adotivos um granjeiro, um carpinteiro, um general. Tudo para criar o seu reino deste mundo: Megápolis, Palestina, España.  O seu reino da Paz, do Bem, da Democracia. E para salvar-nos suportou o diabo no deserto, uma caixa com kriptonita, um golpe de estado militar. E desenvolveu poderes superiores de sanar, de voar, de convocar o exército contra os povos. Deus, rei e herói uno e trino que caíu três vezes e três se ergueu no Calvário, na sua morada no Ártico, numa jornada de caça ou de vela. E morreu e no terceiro dia ressuscitou, foi reimprimido, foi restaurado militarmente. Deus Uno e Trino.

Não ao 25 de julho

Publicado em Vieiros • Em Diário Liberdade • Em MundoGaliza

Por que um Não firme ao 25 de julho? Porque já é hora de dizê-lo. Esse apóstolo construiu uma Galiza inexistente. Só nos países estranhos, como este, a festa coletiva é também a festa do patrono do poder. Patrono de pátrias compatíveis. Muro com muro, na mesma porta a que chegará Ratzinger, pola que entrará um Borbón para ganhar (ganhar) prebendas, dentro duma semana haverá milhares de pessoas com bandeiras compatíveis.
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O Discurso Porquénotecallas

Publicado em Vieiros

Juan Carlos de Borbón y Borbón consagrou definitivamente para a política española o Discurso Porquénotecallas, e os responsáveis jornais riram-lhe a piada: se não gosto do que dizes, berro-che que cales, porque o teu é terrorismo; mas se tu não gostas do que digo eu e berras-me, o teu é terrorismo. Em inglês, a nossa segunda língua depois do español, isto chama-se “a lose-lose situation”: ou perdes, ou perdes. Vamos, como a Inquisición, mas em moderno politono.

O alcaide de Lalimgrado Xosé Crespo pratica o Discurso Porquénotecallas contra os socialistas. Aprendeu-no bem de Fraga Iribarne, do Rey Español-Nascido-Em-Roma (mas um imigrante residente não pode votar), e daquele ínclito “ariete” Xaime Pita que no Parlamento chamava os do Bloco (sim, os do Bloco) “jarraiciños” porque diziam NOM – NOM – NOM e “próprio”. Dizer “próprio” era a essência da estrangeirice, e requeria um urgente Porquénotecallas, estrangeiro!, que não gosto do que dizes. Vamos, como faz a macro-rede AGIR (dizem os médios), mas ao revês, que sim que vale.

Quando os neo-nazis batem na Fundaçom Artábria cada vários meses, por não perderem a prática e a tradição, Garzón e Grande-Marlaska continuam a jogar ao dominó. Recebem um politono no busca: Eh, que há feridos. Bah, são cousas de meninhos. Já sabemos que os neo-nazis não têm ideologia, são apenas gamberros. Sempre foram assim. Não são uma ameaça à disgregação social de España. Não cortam España horizontalmente não, por razão de classe, cor da pele e língua. Não praticam a violência não, mas o bonito Discurso Porquénotecallas, só que um pouco mais duro empiricamente. Desde que seja rojigualda, tudo é constitucional.

Mas AGIR, essa rede islâmica controlada desde as sombras por Darth Vader, quer impor um novo Cosova nos férteis campos que vão de Lalimgrado até à Galiza Irredenta da Naçom As Portelas, e desde a Corunha “sí, sin la ele”, como diz na SER o experto sociolinguista César Antonio Moína (sin la ele) até à Raia Seca onde muda automaticamente a cor da erva no nosso mapa escolar de hilillos de plastilina. Todos os membros de AGIR levam um mapa irredento inscrito nos miolos polos laboratórios de Fidel, o ex-Comandante. Mas os Peones Negros e Losantos não levam mapa nenhum nos neurónios não: levam só a essência platónica e imortal da Liberdade, que resulta que se encarnou terrenalmente no Estado Español, que se lhe vai fazer, situado providencialmente por Dios en el centro del Universo.

Ai, o Discurso Porquénotecallas! Ele produz monstros judiciais, e faz gastar muita, muita tinta de jornais que poderia ser melhor empregada em lusificar os topónimos do Povo. Porque o Discurso Porquénotecallas só tem sempre uma direcção: a minha, que sou o que mando, sou o mando e tenho o mando do politono. Vou-che chimpar os dentes, vou-che escachar uma taça nos focinhos, vou-che meter uma cortante carta polo cu, mas não me chames fascista, nem violento, nem terrorista, que invoco aos meus garridos amigos de azul, e aos da toga e o dominó. E os sociatas? Não, esses não vão ir chorar à Fiscalia, estão domadinhos. Já o disse Clinton I, o verdadeiro: São as Eleições, estúpido. Mas o teu, extraparlamentar mocinho estrangeiro, é puro terrorismo.

Queimando espero…- Semiótica pura

Publicado em Vieiros

Tenho muita curiosidade por saber o que se pode queimar ou não em público no Reino. O governo español, em representação do Rey (isto é, do Estado) deveria meter na SER uma dessas cunhas publicitárias explicando os males eternos da queima de papel, como os da droga ou do tabaco: Quemar Mata… O Te Enchirona. No Chamusques Tu Futuro.

Seica um papelinho com a figura do Rey não pode ser queimado porque ele é o “símbolo de la unidad y la permanencia del Estado” (art. 56 da Constitución Española). A bandeira española também não pode ser queimada: lembrem o encarceramento que sofreu Francisco Rodríguez, hoje deputado do BNG em Madrid, acusado de ter queimado uma vistosa rojigualda aquando da chegada dos restos de Castelao a Compostela em 1984. Num curioso programa de televisão anos depois, cujo simples título daria para uma análise de tese (“Queremos saber: ¿Por qué algunos catalanes, vascos y gallegos no se sienten españoles?”), Francisco Rodríguez respondeu à entrevistadora Mercedes Milá (hoje algo degradada jornalisticamente) que ele nunca queimara a bandeira. Pois má sorte! De ter estado na cadeia, polo menos ter tido o prazer!

Mas, pergunto-me eu, então a bandeira galega actual, tampouco pode ser queimada? De que tamanho sim e de que tamanho não? Em que milímetro começa o simbolismo? Eu, por exemplo, acabo de queimar uma miniatura de papel da vistosa branca-azul no meu gabinete: os seus restos estão no cinzeiro (fiz foto no telemóvel). E um exemplar do Estatuto de Autonomia, pode ser queimado? E um CD pirata do hino galego flamenco de Arturo Pondal (outro símbolo)? Haveria que fazer a prova, diante das câmaras da TVG, em aberto, durante uma manifestação independentista (queimar a galega, digo, a outra já está mais visto).

Queimando espero... - Semiótica pura

De maneira que queimar certos símbolos é ilegal, não porque contamine (Greenpeace não abriu a boca), mas porque a pessoa incineradora manifesta que não compartilha o valor ideológico desse símbolo, ou opõe-se à consagração jurídica desse valor. Então essa opinião distinta ao dogma torna-se num oitocentista “ultraje” (teríades que tunear a língua española um pouco, chachos). A leitura dos factos é assim singela. No entanto, cada fim de semana bêbedos jovens urbanos muito democratas queimam papeleiras plásticas por apolítico prazer, e a Audiencia Nacional (sic) nem se inteira.

Mas, vamos ver (pergunto-me eu): O que acontece se um apenas declara publicamente que queima algo, mas não o faz? O que significa isto? Por exemplo: “Pola presente queimo uma imagem de Juan Carlos de Borbón como símbolo da unidade e da permanência do Reino de España, projecto político que detesto”.

Não, não o fiz bem, não ardeu de todo (com suficiente ênfase). Terei que repeti-lo: “Pola presente queimo uma imagem de Juan Carlos de Borbón como símbolo da unidade e da permanência do Reino de España, projecto político que detesto”. Assim melhor.

Uf, isto é semiótica pura. A repetição exacta indica que a oração não foi gerada aleatoriamente por um vírus de trípi do meu processador WordPerfect. As aspas distanciam-me das palavras, de maneira que eu posso argumentar que citei uma hipotética declaração, mas não o declarei de facto (bom, em privado sim, para mim próprio: é delito?). E, ainda por cima, dizendo que declaro que queimo um ícone, estou a queimar o valor dum símbolo? Tremendo sarilho! Venham Pierce e Morris (semiólogos da Audiencia Nacional, sic) a interpretá-lo; eu afurrico.

Em resumo: Quantas vezes se podem dizer cousas assim sem que a Audiencia Nacional (sic) venha pedir o DNI? Quantas vezes pode uma pessoa manifestar uma opinião política antes de que seja “ultraje”? Porque, porventura alguma autoridade do Reino de España leu a Declaração Universal dos Direitos Humanos? Há tradução española.

Enfim, queimando espero / a Audiencia que mais quero. É claro que a Coroa cambaleia. Resta-lhe menos.

Um conselho para meu rei

Publicado em Vieiros

Senhor Juan Carlos de Borbón, meu rei:

Mire usté. A mim o que faça na sua intimidade religiosa pouco me importa. Mas, enquanto você seja um empregado do Reino, de milhões de súbditos com D.N.I., guarde a exibição das suas crenças para dentro da sua própria solução habitacional. Eu pago os meus tributos para o seu soldo como bom espanhol. Juro-lhe que há anos que não minto na declaração da renda. E o artigo 16.3 da Constitución que lhe dá trabalho diz: “Ninguna confesión tendrá carácter estatal”.

Mas na noite do passado 24 de Dezembro, você soltou-nos mais um desses sermões de catequese pola televisão, paga também com o dinheiro de todos e sobretudo do BBVA. O seu predecessor, lembra?, o Capitão General que o colocou no trono, falava-nos em cada 31 de Dezembro para desejar-nos um ano novo ainda pior. Mas você, meu segundo Capitão General, por se distanciar dele e se aproximar dos nossos corações partíos, mudou a data para o angélico 24. Mesma diferença, como dizem em inglês. Ainda por riba, ameaça-nos com que o seu filho Felipe vai continuar a fazer o seu trabalho no futuro.

Tanto tem. Fale o que quiser, que há liberdade, até para si. Confesso que zapeei uns instantes da sua ladainha. Mas quando saíu no fundo da imagem o presépio esse com as figurinhas cerâmicas de uns personagens estranhos de há 2.000 anos, disse eu, tate, aqui há tomate. Olha tu para as famílias disfuncionais. Não nos podia ter deliciado com o fundo duma colorida natureza-morta ou duma lâmina da Rendición de Breda? Mas não, tinha que ser de novo a superstição cristã, ou judeu-cristã, ou muçulmana, que já sabemos que Cristo também foi profeta do Hezbolá. Nos alvores do Século do Cérebro, como canta a propaganda dos seus Ministérios da ciência, resulta que nos lembram agora de uma senhora palestiniana chamada Maria que pariu sem ver varão (seria por partenogénese, como alguns lagartos fémia quando não há machos, que o aprendi em Tecnoticias de la 2), de um filho dela chamado Jesus que em três anos orando no deserto sem beber viu um dia o Diabo (vaia milagre!), e que aos três dias ressuscitou sem vermes (mal negócio para os de C.S.I.) e ascendeu aos céus sem propulsão de energias renováveis. Aí o único normal era o carpinteiro. E vocês querem contar isso nas escolas públicas e depois perseguem as seitas satânicas?

E o Reino aconfessional de España, racional paradigma mundial de matrimónios trissexuais e de Aliança de Civilizações (que vem de “civil”, não sei se sabe), vai e nos coloca o seu Chefe de Estado, que ainda acredita nas superstições dos bispos, com esse modelo de família no fundo. Pois apanhados estamos.

Ai ai ai, cumpra-me as constituições, senhor Juan Carlos, que qualquer ano destes o PSOE se enfada com você para ficar bem em Europa e lhe faz a cama no seu próprio parlamento. Mire usté: a sua Constitución diz que no Reino de España o catolicismo tem prioridade de passo (sempre vem pola direita), não monopólio. Para o próximo ano (que será o seu penúltimo como líder de Gran Hermano), digo-lhe: ponha-nos também na tele um candelabro judeu com sete braços, umas surahs corânicas bordadas em ouro do Potosi, um pouco de incenso hindu, uns totens animistas, e, em vez do teleprompter, vaia lendo a sua mensagem revelada numa tábua de ouija. Por tolerância.

Ah, e mude a data do discurso para o 28 de Dezembro.

O seu fiel conselheiro de imagem,

Celso Alvarez Cáccamo

Repugnante

Publicado em Vieiros • Publicado em  Novas da Galiza 47, 15 Outubro – 15 Novembro 2006, p. 20

O Reino de España, chefiado como sempre desde que lembro por um militar profissional, prepara-se mais uma vez para celebrar a conquista e o genocídio nesse repugnante 12 de Outubro, Día de la Hispanidad, Fiesta Nacional. Ainda bem que não sou espanhol, que muitos não somos espanhóis para levarmos essa vergonha nas costas. España, a ressessa España dos catecismos escolares, das enciclopédias Álvarez, das cruzes gamadas e latinas, da indivisível unidade, da asfixiante hagiografia e dos mártires do Alcázar e das réstias de repugnantes reis e rainhas, homenageia aquele mercenário Cristophorus Columbus, o mesmo indivíduo que negociou igualmente com o sequestro de escravos africanos em Portugal e com escravos americanos em Sevilha, o que inaugurou a peste e o extermínio, o mesmo indivíduo que alguns tristes patriotas catalães, portugueses ou galegos querem reivindicar como seu.

O repugnante dia da Fiesta Nacional verá, mais uma vez, o desfile de repugnantes exércitos e repugnantes bandeiras de repugnantes monarquias e repúblicas, numa infantil sinceridade espanhola que é de agradecer: porque a essência de España sempre foi o exército. Perante o palco populado de medalhas e sorrisos de pastel, de altezas e baixezas, de políticos hipócritas y otras altas autoridades civiles, católicas y militares, desfilará a essência de España. E quem desfilará com as suas melhores galas de feriado não serão docentes, electricistas, varredores, pessoal sanitário. Não desfilarão campesinhas, cabeleireiros, jubilados, empregadas, contáveis, marinheiros, juízes, jardineiros. Não desfilarão taxistas, parteiras, comerciais, tradutoras, vendedores, peixeiras, músicos, jornalistas, ferralheiros, alvanéis, terapeutas, operárias, poetas, fruteiros, biólogas, limpadoras, camareiros, redeiras, pintores, tratantes, secretários, desempregadas, recepcionistas, mineiros. Não. Desfilarão matadores profissionais, soldados, cabos, sargentos, tenentes, capitães, coronéis, comandantes, generais, carros de metal, aviões de metal, fuzis, mastros, metralha. Desfilará página a página a enciclopédia universal do assassínio legal, regulado, cristão, salvador. Desfilará letra a letra o infame artigo 8 da Constitución Española.

E assim, mais uma vez, España demonstrará transparentemente a sua vocação armada, imperial, grotesca, o seu fracasso histórico. E todos e todas saudarão bandeiras de cor de sangue e bílis, bandeiras com estrelas de dor, com águias predadoras, com coroas de ouro roubado, bandeiras com as eternas palavras do extermínio: América, Marrocos, o Sara, Guiné, Iraque, Líbano, Afeganistão, Haiti. Felizmente regressarão os EUA ao concerto hispânico dos amigos da morte. E firmes nos seus tronos democráticos, políticos que lixam a palavra “socialista” e políticos que lixam a palavra “popular”, os mesmos que invadiram o Iraque e os mesmos que o abandonaram para continuarem no Afeganistão, para invadirem o Líbano cegamente fieis aos cães da guerra, celebrarão juntos a glória da Conquista, a heróica missão do Reino nos intestinos da prata e do ouro negro.

Do Cusco a Cabul, na mais antiga tradição monárquica, España continua a celebrar a épica da morte humanitária com o fulgor erecto de sabres e pistolas. Como sempre com essa monstruosa retórica da libertação cristã, democrática, ocidental. Como sempre desde que lembro. Como sempre até que a gente desse Reino decida deter a repugnante farsa.