Como fumigar democraticamente

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Como não seguim o Circo Eleitoral Europeu, não soubem que o lidereso popular basco Carlos Iturgaiz propusera um tratamento higiénico político de provada efetividade: a fumigação, não apenas do exército da ETA, mas de todo o seu “contorno”, legal, alegal, ilegalizado ou relegalizado, incluindo o candidato de Iniciativa Internacionalista Alfonso Sastre. Aquelas (e estas) declarações de Iturgaiz são transparentes: “Iturgaiz felicita la ilegalización de Iniciativa Internacionalista porque ‘hay que fumigar a ETA’” (EFE, 18 maio), “‘hay que fumigar a ETA con la ley en la mano se llame como se llame’ y ha reclamado medidas por parte del Gobierno ‘cuando sabemos que la lista de Iniciativa Internacionalista en la lista de los criminales’” (Europa Press, 30 maio); “ ‘…actuar con la ley en la mano para fumigar todo lo que signifique terrorismo’ (…) ‘Ese terrorismo (…) intenta(n) exportar un terrorista a Europa con el nombre de la lista Iniciativa Internacionalista” (Europa Press, 1 junho); “fumigar con la Ley en la mano todo lo que signifique ETA y sus acólitos” (22 junho). Claro que talvez tudo fosse apenas feliz metáfora, caso no qual o “dolor” que Sastre agoira para Euskal Herria e España também se pode ver assim. Ui, que escorrego.

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Uma humilhação muito cordial

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Hoje de manhã sofrim o meu primeiro controle policial sem qualquer motivo, numa rua da Corunha. Confesso que o meu historial não tem medalhas: nunca antes me parara a Policía Nacional por terrorismo, alcoolémia, drogadição ou monolinguismo. Mas hoje ia eu de carro velho ao trabalho, e um polícia fluorescente muito armado fez-me parar no controle, por detrás duma carrinha. Fervilhavam em torno da Nave-Mãe outros polícias até os dentes, sem se afastarem muito, como em invisível cordão umbilical. Quem sabe os seres que havia aí dentro.

Todo o acontecido foi uma humilhação muito cordial:

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O enfrentamento dos salva-pátrias

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Não serei eu quem defenda a organização Batasuna, cujos elementos de messianismo ideológico estão muito longe do meu ideário político, mesmo sendo consciente como sou da distorção sistemática a que as suas palavras e ideias estão submetidas polo império mediático español. Mas, se de abominar dos messianismos se trata, não esqueçamos nunca a postura e os actos da Audiencia Nacional deste Reino, com figuras como Baltasar Garzón ou Fernando Grande-Marlaska que têm tanto poder efectivo em remexerem o ambiente social e as nossas próprias mentes com a aplicação, sempre política, das leis do Reino. O auto de Baltasar Garzón para o encarceramento dos líderes de Batasuna, tal como o conheço pola edição impressa de EL PAÍS, é um exercício de uma natureza tão ricamente visionária que nos ilumina para sempre (quer dizer, até que mudem as directrizes policiais) o panorama próximo da violência (a de Estado e a outra) neste Reino de salva-pátrias. Porque, quando começavam a cheirar a cinza velha (como após uma adolescente fogueira) as imagens de Juan Carlos de Borbón, Garzón faz-nos gozar com mais uma historieta, com um texto escrito na mais peculiar gramática da língua do império, e com o recorrente leit-motiv jurídico e quase-literário de que Batasuna se reunia para “abordar el enfrentamiento”. Certo, diz EL PAÍS que esta frase está escrita a mão nas margens dum documento interno de Batasuna apanhado pola polícia na reunião. Mas esta frase é motivo para chamar Batasuna ETA, ou ETA Batasuna, ou para redesenhar a geometria dos “entornos” políticos (se se lê o auto com atenção), onde umas vezes Batasuna é ETA e portanto está dentro de ETA, outras está fora mas é de dentro, e ainda outras (quando procura a paz) está dentro mas quer estar fora, e assim por diante. Poupo aos leitores o desastre cognitivo de pretender compreender esta geometria imposta pola Audiencia Nacional e pola Lei de Partidos, uma nova geometria moderna que tão proveitosa resultou sempre para os Estados militares definirem à vontade a identidade delituosa dos sujeitos (veja-se, sem ir mais longe, a ordem pós-euclidiana do “Eixo do Mal”, a criação discursiva de “Al-Qaeda”, o “terrorismo internacional”, e outras ameaçantes construções fantasmagóricas que o jornalista Adam Curtis se encarrega de revelar no documentário The Power of Nightmares).

Não é preciso ser muito inteligente para imaginar o que se esconde após uma expressão política como “abordar o enfrentamento”. Duvido poderosamente, por exemplo, que as diversas instâncias do Estado e dos partidos não concebessem a situação política depois da bomba massiva de ETA em Dezembro de 2006 como uma nova fase marcada polo confronto. Os representantes políticos voltaram a empregar escoltas, reforçaram-se as medidas de auto-defesa, reanimou-se a violência jurídica, e a tensão voltou a notar-se na vida e sobretudo nos catequéticos jornais españóis que aos súbditos do Reino nos amargam o chá e a cálida torrada da manhã. Quem recomeçou essa nova fase e esse tipo de enfrentamento, com uma bomba brutal que assassinou duas pessoas? Evidentemente, a ETA. Mas, colocou esta bomba Batasuna ou a sua “cúpula”, curioso elemento arquitectónico dos partidos que remete para um templo em lugar de para uma rede de pessoas? Se Batasuna o tivesse feito, toda a Audiencia Nacional, a Fiscalia do Reino, os governos español, basco e madrileno e o Chefe do Estado deveriam estar todos na cadeia por flagrante e cúmplice negligência por deixar Batasuna livre. Porque, se reunir-se para “abordar o enfrentamento” é uma actividade “presuntamente delituosa”, mais presuntamente delituoso será desmembrar duas pessoas com uma explosão que esnaquiza um enorme estacionamento. Em resumo, se Batasuna é ETA, todos os seus membros, do começo até ao final, para a cadeia. E, se não é, a calar e a deixar-se de interesseiras hipocrisias e de linguagem perversa.

Portanto, calculo que concordamos que nem Batasuna nem o Estado Español são os autores nem os culpáveis da bomba da ETA que reiniciou o “enfrentamento”. Mas as novas condições políticas, herdadas dum patético “processo” encaminhado por parte do Estado sobretudo para inocular ainda mais confusão mental numa massa de súbditos já descerebrados, inauguraram um tipo de “enfrentamento” do qual não pode escapar nenhum dos dous agentes salva-pátrias desta guerra: os braços do Estado, e a patriótica (“abertzale” é uma desnecessária dissimulação) esquerda basca. Seria ridículo negar que ambos rivais vêem a situação em termos de confronto jurídico, político, e físico, quer dizer, numa relação de tensão definida pola violência: ataques físicos e verbais, privação ou coerção da liberdade doutrem, violação de direitos, exploração da propaganda como método, etc. etc.

Dificilmente a constatação deste confronto, e a vontade duma organização como Batasuna de “abordá-lo”, se pode ver como um argumento de peso como indício delituoso para uma mente racional, em ausência de detalhes explícitos na planificação do enfrentamento. Num enlamado totum revolutum que lembra mais uma fatwa que um texto jurídico, o auto de Garzón coloca lado a lado o “enfrentamento” com, por exemplo, a táctica política de Batasuna de aproveitar as mobilizações contra o AVE. E o tremendista órgão da direita intervencionista EL PAÍS, que já não sabe que hollywoodiano cabeçalho colocar agora que o Público regala DVDs, eleva ao cubo o poder evocador do “enfrentamento” reiterando-o várias vezes na notícia.

Os tristes gudáris de Batasuna, a desafiarem a lei dum Estado em que não acreditam, reuniram-se com suficiente luz: foram dous vizinhos da vila quem solicitaram o local do concelho para a reunião. Talvez se solicitou com qualquer escusa, nem sei, nem tem importância, mas calculo que como acto político da patriótica esquerda basca. A “cúpula” de Batasuna não se reuniu nos montes ou em majestáticos zulos habitacionais como os que, diz a lenda, tinha Ali-Babá-Ben-Laden nas montanhas de Tora-Bora, nem se reuniu num desses remotos e exóticos caseríos de petrúcios a que a imaginaria española nos tem habituados como campos de treinamento onde –pontifica a porta-voz do dogma da Transición Victoria Prego– se forjou a aliança de civilizações católico-etarra. Estranha maneira a da “cúpula” de Batasuna de pertencer a ETA para planificar o enfrentamento: num local dum concelho basco.

É difícil entrar nos mundos imaginários respectivos em que combatem estes dous messianismos: o do Reino de España, e o dos gudáris bascos. Devem ser territórios nacionais míticos habitados por tantos seres fabulosos e alimárias tolkenianas que a zoologia e a teratologia do nacionalismo precisariam ser reescritas. Mas um pobre súbdito como eu reage hoje assim, com a fúria das palavras, porque está canso de ser sacudido dia sim e dia também polas hostes habituais de salva-pátrias: os que levam na mão as leis do Reino Borbónico como a Lei de Deus que a invenção do “pueblo español” votou (dizem) em constituições e eleições e outros ritos de sujeição masoquista, e os que levam na mão e nos papéis uma ideologia também redentora (isto é, também nacionalista) composta apenas de quatro palavras primitivas, quatro noções sobre o que é ser pessoa, sobre o que é a acção política, sobre o que sejam as formas das identidades sociais. As mentes de todos os salva-pátrias são, felizmente, inescrutáveis. Mas, infelizmente, ainda projectam sobre nós, dia após dia, cada manhã, quando com toda a burguesa ingenuidade queremos abordar o habitual enfrentamento gastronómico com um chá e uma cálida torrada com manteiga, a sombra dum mundo repulsivamente repetitivo, circular, cansativo, brutalmente elementar como a esquálida mente e os actos de todos os guerreiros.

Propriedade privada

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As mulheres são propriedade privada dos varões. Quando já não servem para as suas funções no sexo, na cozinha, na submissão simbólica, são sacrificadas. São sacrificadas como um animal que se possui: como um cão rebelde, como um cavalo velho. Os donos sacrificam-nas com lume, com facas, com balas, com as mãos, com pedras para esmagarem os seus cérebros. Como em muitos lugares o sacrifício privado é ilegal, alguns varões entregam-se aos seus serviços de segurança. Nalguns lugares há juízos para garantir o sacrifício legal da propriedade privada já inservível.

Os operários e operárias são propriedade privada das empresas. Quando saem mais caros que o benefício que produzem (como uma amante velha, como um cavalo doente) são sacrificados, retirados do trabalho, dando-lhes fome por alimento, fechando as factorias. Os operários são abandonados à intempérie como um cão que uiva no monte por voltar ao seio do seu amo. Sacrificar operários dando-lhes fome costuma ser legal, desde que passem a ser propriedade privada directa do Estado, do seguro de desemprego.

Os países, as gentes e os territórios são propriedade privada dos Estados. A Galiza ou Euskadi são propriedade privada do estado monárquico, que os aluga a gente que por isso se chamam galegos ou bascos. Quando os ocupantes que alugam os países querem tomá-los, o Estado pode chamar ao serviço do segurança, ao exército. Às vezes, muitos inquilinos são sacrificados com balas, com paus, como se sacrifica um cão rebelde. Às vezes, uns poucos inquilinos varões empreendedores alcançam a tomar para si os países em aluguer, e os países, gentes e territórios passam a ser propriedade privada dos novos varões, dos novos Estados, que voltam a alugá-los.

O petróleo, o gás, o ar, a água, o sal, o pão e o arroz são propriedade privada dos varões, das empresas e dos Estados. Quando resulta caro demais obter ou produzir o gás, a água ou o arroz com as mulheres, homens e meninhos que trabalham nos campos, florestas e desertos alugados, os exércitos dos Estados das empresas dos varões sacrificam-nos com balas, com lume, com mãos e com facas, esmagam-lhes o cérebro com metralha, deformam a sua visagem com fósforo, desmembram-nos para fazerem ecrãs e cabeleiras sintéticas, produzem baralhos dos seus rostos, vídeo-jogos da sua nudez, megawatts dos seus cadáveres nas duches crematórias.

De tudo isto há imagens e palavras, diariamente. E as imagens e palavras que chegam às casas e às cozinhas onde as mulheres fervem arroz para os seus donos com restos de animais sacrificados, são propriedade privada das empresas e dos Estados. Quando as imagens ou palavras se rebelam e pensam, quando são inservíveis porque dizem como querem a verdade do extermínio, os Estados sacrificam-nas em altas labaredas, cortam as páginas com facas, riscam as frases imigrantes e os acentos rebeldes com tinta de sangue, decapitam as fotografias, torturam o significado. Os juízes e os exércitos dos Estados fecham em Guantánamo as páginas que fazem ritual greve de fome, desterram para o monte a uivarem como cães as imagens certas do extermínio.

As mulheres, a força de trabalho, os animais, os territórios, o gás, a água, o arroz, as imagens e as palavras têm todos nomes únicos, cifras, códigos, facturas, certidões de propriedade, vias de distribuição, composição interna, dimensões, peso, embalagem, modo de emprego, data de caducidade, lugar exacto para serem utilizados nas casas e nas indústrias, nos leitos, na corte, na cadeia de montagem, no sofá, nas estantes, no cérebro, lugar exacto para botar os seus resíduos, nos cemitérios, nos matadouros, nas lixeiras, nos esgotos, nos desertos, nas estantes, no cérebro.

E, afinal do seu ciclo, cada espécime de propriedade privada das pessoas e dos Estados torna-se na mente depois do seu uso escrupulosamente no mesmo: numa solitária reacção orgânica e num furtivo vágado irreal, como se tudo isto se tratasse apenas de um mundo alegórico indescritivelmente pavoroso que por ventura não existe.

Repugnante

Publicado em Vieiros • Publicado em  Novas da Galiza 47, 15 Outubro – 15 Novembro 2006, p. 20

O Reino de España, chefiado como sempre desde que lembro por um militar profissional, prepara-se mais uma vez para celebrar a conquista e o genocídio nesse repugnante 12 de Outubro, Día de la Hispanidad, Fiesta Nacional. Ainda bem que não sou espanhol, que muitos não somos espanhóis para levarmos essa vergonha nas costas. España, a ressessa España dos catecismos escolares, das enciclopédias Álvarez, das cruzes gamadas e latinas, da indivisível unidade, da asfixiante hagiografia e dos mártires do Alcázar e das réstias de repugnantes reis e rainhas, homenageia aquele mercenário Cristophorus Columbus, o mesmo indivíduo que negociou igualmente com o sequestro de escravos africanos em Portugal e com escravos americanos em Sevilha, o que inaugurou a peste e o extermínio, o mesmo indivíduo que alguns tristes patriotas catalães, portugueses ou galegos querem reivindicar como seu.

O repugnante dia da Fiesta Nacional verá, mais uma vez, o desfile de repugnantes exércitos e repugnantes bandeiras de repugnantes monarquias e repúblicas, numa infantil sinceridade espanhola que é de agradecer: porque a essência de España sempre foi o exército. Perante o palco populado de medalhas e sorrisos de pastel, de altezas e baixezas, de políticos hipócritas y otras altas autoridades civiles, católicas y militares, desfilará a essência de España. E quem desfilará com as suas melhores galas de feriado não serão docentes, electricistas, varredores, pessoal sanitário. Não desfilarão campesinhas, cabeleireiros, jubilados, empregadas, contáveis, marinheiros, juízes, jardineiros. Não desfilarão taxistas, parteiras, comerciais, tradutoras, vendedores, peixeiras, músicos, jornalistas, ferralheiros, alvanéis, terapeutas, operárias, poetas, fruteiros, biólogas, limpadoras, camareiros, redeiras, pintores, tratantes, secretários, desempregadas, recepcionistas, mineiros. Não. Desfilarão matadores profissionais, soldados, cabos, sargentos, tenentes, capitães, coronéis, comandantes, generais, carros de metal, aviões de metal, fuzis, mastros, metralha. Desfilará página a página a enciclopédia universal do assassínio legal, regulado, cristão, salvador. Desfilará letra a letra o infame artigo 8 da Constitución Española.

E assim, mais uma vez, España demonstrará transparentemente a sua vocação armada, imperial, grotesca, o seu fracasso histórico. E todos e todas saudarão bandeiras de cor de sangue e bílis, bandeiras com estrelas de dor, com águias predadoras, com coroas de ouro roubado, bandeiras com as eternas palavras do extermínio: América, Marrocos, o Sara, Guiné, Iraque, Líbano, Afeganistão, Haiti. Felizmente regressarão os EUA ao concerto hispânico dos amigos da morte. E firmes nos seus tronos democráticos, políticos que lixam a palavra “socialista” e políticos que lixam a palavra “popular”, os mesmos que invadiram o Iraque e os mesmos que o abandonaram para continuarem no Afeganistão, para invadirem o Líbano cegamente fieis aos cães da guerra, celebrarão juntos a glória da Conquista, a heróica missão do Reino nos intestinos da prata e do ouro negro.

Do Cusco a Cabul, na mais antiga tradição monárquica, España continua a celebrar a épica da morte humanitária com o fulgor erecto de sabres e pistolas. Como sempre com essa monstruosa retórica da libertação cristã, democrática, ocidental. Como sempre desde que lembro. Como sempre até que a gente desse Reino decida deter a repugnante farsa.

A épica do suicídio

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Este texto surge a raiz de debates na lista Language in the New Capitalism

O discurso de Joseph Ratzinger –conhecido como Bento XVI pola sua profissão– no passado 12 de Setembro causou uma comoção mediática polas suas referências ao Islão. O texto, que foi uma palestra intitulada Fé, Razão e a Universidade: Memórias e Reflexões perante representantes da ciência na Universidade de Regensburgo, parte de citações de uma controvérsia medieval entre o imperador bizantino Manuel II Paleologus e certo persa culto sobre três livros religiosos: o Antigo Testamento, o Novo Testamento, e o Corão. Ratzinger cita o editor do diálogo, Theodore Khoury, citando o imperador a citar surahs do Corão sobre, entre outros tópicos, a “guerra santa”. Ratzinger contrapõe uma visão parcial do islão e do seu violento deus (um deus “não sujeito nem a sua própria palavra”) com a racionalidade helenística, que seria não só a base da ciência ocidental moderna, mas o pouso intelectual em que se teria assentado naturalmente o cristianismo. Decerto, esta parte do discurso de Ratzinger é propagandisticamente parcial, e assim foi lido por imans e alguns muçulmanos que, a exercerem violência, não fizeram outra cousa que reforçar as teses de Ratzinger. Num artigo em Counterpunch, “Papal Insults. A Bavarian Provocation” (“Insultos papais: Uma provocação bávara”), Tariq Ali contesta em defesa do “mundo islâmico” e, concretamente, de “dous dos seus países” (o Iraque e Afeganistão) ocupados por “tropas ocidentais”, lembrando o sangue histórico deitado polo dogmatismo da religião cristã, também com citações escolhidas de textos religiosos cristãos. Muito longe da análise social crítica, temo-me que a réplica de Tariq Ali também reforça a ideia de que os conflitos económicos mundiais podem ser discutidos em termos pseudo-teológicos, além de um par de frases de manual de corte social.

Mas eu leio o texto de Ratzinger mais bem como um interesseiro meta-texto sobre o papel do catolicismo num mundo crescentemente invadido por outras e novas denominações de origem religiosas. Ratzinger simula convidar ao “diálogo genuíno” com uma nova controvérsia (dialéxis) sobre os escopos respectivos da ciência e da razão, da ética e da religião. Para mim, o texto está desenhado para o consumo interno do “mundo cristão”, dado o retrocesso sofrido polo catolicismo perante a mercadotecnia do evangelismo. É um intuito de apropriar a racionalidade, ao equiparar ciência e razão por uma parte, e religião e ética, por outra. Assim, para Ratzinger a ética religiosa deveria derivar de um alargamento do escopo da “ciência” para incluir a filosofia e, noutro sentido, a teologia, isto é, a (bizantina, em mais de um sentido) racionalização da fé. Diz Ratzinger:

“Este é um perigoso estado de cousas para a humanidade, como vemos polas perturbadoras patologias da religião e da razão que irrompem necessariamente quando a razão fica tão reduzida que as questões da religião e da ética já não lhe concernem. As tentativas de construir uma ética a partir das regras da evolução ou da psicologia e da sociologia terminam por ser simplesmente inadequadas”.

Ou

“Só assim [pola racionalização da fé] somos capazes desse genuíno diálogo das culturas e religiões que hoje se precisa tão urgentemente. No mundo ocidental é visão geral que só a razão positivista e as formas de filosofia baseadas nela são universalmente válidas. Porém as culturas profundamente religiosas do mundo vêem esta exclusão do divino fora da universalidade da razão como um ataque contra as suas convicções mais profundas. Uma razão que é surda ao divino e que relega a religião ao âmbito das subculturas é incapaz de entrar no diálogo das culturas”.

O gambito, como nas controvérsias, seria teoricamente implicar outras religiões num “diálogo” racional “genuíno”, mas obviamente, desde a vantagem da racionalidade helenística, ocidental e eurocêntrica, incorporada por naturalização no cristianismo. Mas mais preocupante do que esta apropriação é a deslegitimação que se faz do pensamento científico (as “regras da evolução”, a “psicologia” e a “sociologia”) para o ordenamento da ética, absorvida por Ratzinger na ideologia cristã como expressão da essência humana.

É certo que o messianismo destas palavras –com a sua clara reverência ao criacionismo ao assumir que a ética humana não é um resultado evolutivo da espécie, mas então platonicamente (divinamente) prévia– assinala uma aliança táctica com o que já se tem chamado o teo-conservadorismo norte-americano. Nestes termos poderia caminhar uma crítica sociologicamente orientada do discurso de Ratzinger. O que me surpreende, porém, é que um texto sem dúvida bem polido mas articulado em torno de uma ideia muito simples levante críticas (como a de Tariq Ali) que só reforçam o enquadramento do desastre mundial actual em termos do “islão”, o “ocidente” ou outras totalizações. Isto não é só inquietante, mas representa um fraco serviço à compreensão das causas do desastre. Desta perspectiva redutiva compartilhada por uns e outros, o “islão” tem produzido grandes atrocidades históricas, como o “cristianismo”, o “judaísmo” ou o “hinduísmo”. Mas o “islão” no seu conjunto não é atacado porque qualquer discurso interesseiro indique que passagens do Corão são susceptíveis de serem interpretadas como convocatórias a uma “guerra santa” que (outros exégetas dizem) inexistem como tais nesse livro (jihad traduz-se por combate: um combate “pequeno” para a conversão dos infiéis, e um combate interior “grande” que não deixa de lembrar a “revolução interna”). Da mesma maneira, a “cristandade” no seu conjunto não sofre polas menções de Tariq Ali às Cruzadas, nem o “judaísmo” sofre polas críticas a um projecto sionista de expansão estatal que não é compartilhado nem pola resistência cívica israelita nem pola ortodoxia judeia. Se a “fé” existe, deveria ser impermeável aos erros históricos. Este recurso dialéctico às atrocidades históricas do adversário ideológico é, se se me permite, meridianamente ridículo.

O que denigra o islão, o cristianismo, o judaísmo ou qualquer outra ideologia religiosa são as exégeses essencialistas dos seus respectivos textos fundacionais, solenemente exercidas por esquadras de maduros varões (sempre varões) desde o privilégio material das suas palestras reais, virtuais ou mediáticas, num exercício de elite que já perdeu todo o contacto humano com a realidade. A ideologia religiosa é igualmente denegrida polo acrítico submetimento de legiões de homens e mulheres crentes a estes solenes varões, como se apenas estes pudessem ser a voz da fé individual (seja isto da “fé” o que for), numa sorte de estranho deslocamento que sem dúvida desafia a “racionalidade da fé” que Ratzinger procura se apropriar.

A totalização das palavras “islão”, “cristianismo”, “judaísmo” ou qualquer outra ideologia religiosa cria monstros. O paralelo especular da queima de livros polos Nazis é a idolatria de um só Livro, tenha o título que tiver. E estas totalizações são extremamente úteis para que outros construtos, também totalizadores (os Poderes Ocidentais, os Neo-Conservadores, os Teo-Conservadores, o Complexo Industrial-Militar, o Sionismo, Al-Qaeda) se apoderem dos nossos actos a meio de uma apropriação mediática, simulada, das nossas mentes.

Eu compreendo que os média corporativos precisam de inflar estes assuntos descabidamente, visto que a realidade já não é tão real como soía ser (a realidade é tremendamente aborrecida para os índices de audiência). Mas eu pergunto-me por quê certa crítica é incapaz de retirar das suas análises a palavra “islão”, que por definição só pode incidir no discurso dominante das emoções. Já sabemos que as razões principais para a presença ou a ameaça de exércitos ocidentais ao Iraque, Afeganistão, o Irão, Síria, Líbano não é que estes sejam “países muçulmanos”. Porque não o são. São países de gente, e de classes sociais. Os exércitos cristãos espanhóis massacraram nativos americanos durante séculos e ninguém cabal chamaria isso uma guerra de religiões. O que se precisa é uma resistência decisiva em favor do laicismo dos estados (já que estes existem, mantenham os deuses e outros seres pavorosos fora do meu dormitório e das minhas escolas), não análises que, ao nomearem os mesmos objectos que os conservadores religiosos nomeiam, reforçam alianças semântico-militares incomprovadas como “islamismo/Al-Qaeda” (uma organização armada religiosa com um nome laico???) ou o também inexistente “choque de civilizações”.

Realmente aborrece escutar este discurso das emoções religiosas todo o tempo. Nunca desde os tempos de Franco a religião esteve tão presente nos média e no pseudo-debate público desta mutação histórica que é o Estado Espanhol. Numa táctica evidente, a classe política, os média e todo tipo de comentaristas brandem o “islamismo” como a fonte de todos os males, ou defendem-no como se o petróleo fosse muçulmano, quando do que se está a falar realmente é do outro Inomeado (como todos os deuses verdadeiros) como fonte de todos os bens: o cristianismo, o judaísmo, o judeo-cristianismo. Assim, a situação actual, onde a imigração, o multiculturalismo, o “terrorismo” e as religiões “alheias” se reúnem num totum revolutum no discurso público, excede todo sentido de normalidade.

Mas estou começando a pensar que tudo isto é o resultado da vitória global do pensamento religioso institucionalizado sob o disfarce doutrinário de um Nazismo que na verdade nunca perdeu a guerra. Quando se acredita num princípio dogmático último além da racionalidade de senso comum e da experiência (o Estado, a Raça, a Pátria, Deus: um Aleph nunca visto mas igualmente existente que resumiria e explicaria tudo), o resultado também final da lealdade incondicional só pode ser a Morte, esse sacrifical suicídio explosivo eficazmente inventado polo Império japonês, não por Mohammed Atta. A finais dos anos 1990, os militantes salafistas começaram a matar-se entre eles e a extinguir-se (um suicídio em massa) em lugar de matarem os infiéis ocidentais, pois já não tinha sentido salvar aquele mundo corrupto se Deus não podia achar nem um homem puro entre os seus próprios seguidores. Curiosamente, foi então, quando o islamismo armado estava mais débil, que apareceu a insígnia “Al-Qaeda”. Mas já muito antes também Hitler quis suicidar a impura raça germana quando se suicidou, pois Ele (isto é, Hitler) falhara-lhes. E talvez Hitler fracassou porque também era “judeu”. Os horríveis crimes dos alemães nazis contra os alemães judeus (e europeus judeus em geral) só se podem entender em termos da purificação de uma parte do que era visto como o próprio Corpo Ário. Os alemães judeus não eram “o Outro”, mas a parte do Um-Próprio, inscrito no sangue e nos nomes alemães (o nono apelido de Hitler era “judeu”). Para o Nazismo, matar os judeus significava amputar um membro importante do próprio corpo, que, por certo, criara significativo pensamento científico, filosófico e político para a Germânia, incluindo o Marxismo. Afinal, a operação racista Nazi teve sucesso, e por isso o anti-semitismo europeu tomou firmes raízes na criação do Estado de Israel, primeiro pola superação numérica dos judeus semitas da Palestina por parte dos judeus europeus, e depois polo deslocamento e assassínio dos semitas muçulmanos e cristãos. A actual situação mundial deve mais do que sabemos ao triunfo do Nazismo, talvez a máxima expressão histórica conhecida da totalização da Identidade.

Cristo, Hitler, os kamikazes, Atta, os homens-bomba, Lavapiés, Jamestown, o United-93, os mártires e heróis da cultura da guerra de Hollywood… A religião é a épica do suicídio. O argumento subjacente sem provar é que o Grupo humano é materialmente um supra-organismo, uma enorme estrela de mar que às vezes precisa de sacrificar um dos seus membros polo bem comum. E a “globalização”, assim, não é mais do que uma consequência internamente lógica, a longa construção dum corpo monstruoso: o vasto corpo de Deus. Neste sentido, assim como ontem alemães nazis mataram centenas de milhares de alemães judeus nas aras da pureza orgânica, hoje as matanças mútuas de iraquianos também não constituem uma guerra civil, mas uma cura, e portanto o sangrado terapêutico deve continuar, vigiado polos exércitos de deus: o massacre iraquiano é puro suicídio, é a auto-limpeza necessária, a necessária auto-purga de uma parte impura do corpo global. O Iraque é uma maciça apoptose. Porque o infantil deus cristão do Capital genuinamente acredita que o mundo é o Seu corpo, e tem que lutar contra outros deuses igualmente infantis que também desejam ter um corpo.

A racionalidade da fé? Eu nem sei. A mim o que me diz a racionalidade é que a Teologia é pura Teratologia. E que, polo que sei, essa terrível pulsão suicida inexiste no Marxismo.

Vítimas do terror

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O terror não consiste apenas em encontrar-se de súbito rodeado duma floresta obscena de carne humana ensanguentada e metralha. Não consiste apenas em sentir o frio do metal na caluga e aguardar, aguardar a bala eternamente. Não consiste apenas na escuridão do calabouço, esse zulo democrático, esse anti-útero do Estado. Nem na ignomínia do fato laranja, da tortura com cães, das mãos infantis talhadas com machete, das praias bombardeadas, do corredor da morte. O terror começa na mente masculina, na quotidianeidade das cozinhas, na primeira labaçada, no primeiro insulto, na violação diária da dignidade. O terror é a mais poderosa fantasia sexual dos varões que levam mísseis entre as pernas e grandes facas erectas para matar, sempre para matar, para roubar, possuir e depois matar a carne usada que já não serve.

Todo o terror é político, como a mente. A mesma mente que agora faz reconstruir o cenário do assassínio é a mente que o concebe antes, como um plano estratégico de conquista. Desde há milhares de anos, o exército mundial dos varões planifica o lento genocídio. Seduzir, induzir, enganar, atrair com palavras ou com gestos, e depois possuir, violentar, utilizar, exterminar. O corpo da mulher está em usufruto do terror. Cada vez que o terror mata uma mulher, a mesma vesânia histórica reproduz-se. O terror mata-as na casa, na rua, num deserto em guerra, num prédio desabitado, com luz, às escuras. Mata-as com gasolina, com facas, com metralha, com as mãos. O varão mata-as protegido pola lei, legitimado pola propaganda, justificado pola exaltação universal do corpo que ele não tem. A mente do varão sofre o corpo que não tem. Porque, no fundo, a mente do varão terrorista só se vê a si próprio como corpo. Todo o mundo é carne para o terror do varão.

Mas as vítimas do terror não se organizam. Não saem em brigadas de voz a encurralar o terror. Não exercem a sua força, a da metade da humanidade, em armas contra o varão, contra o terror. O terror inflecte nas suas possíveis vítimas indignação e ira, mas não induz à revolta. Porque a revolta, a revolta verdadeira, consistiria numa insurreição de classe muito mais poderosa do que todas as que a História contemplou. E a mente masculina do terror que rege o mundo não pode permiti-lo. Assim, cada poucos dias, surge a notícia do assassínio. Lemos os jornais, sentimos a náusea, a ânsia de vingança. Mas o tempo passa, o tempo fundado por um deus atroz continua a passar, enganoso, enganando a memória. O varão dosifica o terror como um preparado homeopático contra-natura. E as vítimas suportam a regulada barbárie do terror como se fosse esporádica, não um fiel produto da mente masculina.

Todo o terror é politico, como a mente. A política do terror mora nos actos mais miúdos, no sagrado seio triangular da Família, no sagrado seio dos Partidos, no seio do Trabalho e da miséria. Hostes de mulheres levam dentro corpos futuros para o prazer do terror, nova carne para o longo genocídio. Varões desenham em mapas militares, jogos eléctricos e hormonadas conversas os seus planos de conquista. De novo no Verão os números sexuais soam sem controlo. Nos televisores refulgem líquidos limpadores de corpos, de cozinhas. Mulheres continuam a esmolar trabalhos provisórios, nutrir o corpo do varão, coser o uniforme do varão, cuidar o filho do varão, sempre lavar os fluídos espessos do varão. Lustrosos generais ejectam enormes pénis de metal que sobrevoam os desertos. Estoura o sémen. E no calabouço dum prédio desabitado aparece uma outra vítima do terror.

Para o Terror, todo o mundo é carne feminina.

Matar mulheres pobres com palavras

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Vi várias vezes o vídeo do assassínio de María Rosario Endrinal Petit a mãos de Ricard Pinilla, Oriol Plana e Juan José M. em 16 Dezembro 2005 em Barcelona, para procurar compreender melhor os signos da barbárie. No acto, paradigmático de uma vesânia diária assumida polos mentecaptos como “incidentes isolados”, concentram-se três contrastes básicos de sentidos que articulam a dominação na sociedade do Capital (polo menos nesta; talvez noutras também, dirão os ultraliberais; mas eu não vivo noutras, e outras barbáries não exculpam esta). Um cabeçalho assim resumiria os eventos: Três homens jovens de classe meia-alta assassinam uma mulher maior pobre. Três contra uma, homens contra mulher, juventude contra madurez, mais ricos contra mais pobre. Maiorias, guerra de género, guerra de classe, guerra de corpos. Números, testosterona, força, armas: tudo encaixa. Só falta o elemento étnico, presente noutros ataques nas ruas das metrópoles do Reino.

Dous jovens entram num caixeiro automático de La Caixa, baluarte do capital nacional catalão, onde a mulher se dispunha a dormir. Insultam-na, agridem-na, um terceiro mercenário incorpora-se ao ataque, e finalmente os três matam-na prendendo-lhe lume com dissolvente. A câmara de “segurança” vigia que ninguém roube euros: está desenhada para proteger a propriedade. A vítima, sem dúvida, cometera muitos delitos: Era mulher, era desapossada, não ia limpa, e okupara com o seu corpo o recinto sagrado do caixeiro automático. Durante um tempo, ela conseguiu refugiar-se dos atacantes fechando-se por dentro. Mas enganaram-na, fingindo que um terceiro jovem queria entrar para levantar dinheiro. Cash, recendente cash. Ela acedeu ao inviolável direito (era, também, ex-trabalhadora de La Caixa) e abriu. Isso foi a sua tumba. As imagens revelam o rosto mirrado da assassinada, os rostos límpidos e penteados de dous dos homens. O terceiro rosto, de 16 anos, é mantido oculto informaticamente. Será por “respeito à imagem do menor”, é lógico: O pretenso assassino tem pretenso rosto. Os verdadeiros terroristas, de rosto em cartaz, são sempre estrangeiros, bascos e “moros” infiltrados no corpo nacional. E, além, aos 16 anos não se mata: brinca-se. Mostrar o rosto do assassino seria vulnerar os seus direitos. O cadáver, porém, já não os tem.

Os cépticos dirão que, mais uma vez, leio demais nos actos sociais. O assassínio poderia ter acontecido noutro lugar. O morto poderia ter sido um homem. Os assassinos poderiam ter sido também esfarrapados. A vítima poderia ter sido rica. Isto também acontece. Certo. E esses actos também significam. Mas há neste crime uma sobredose de sentidos sociais que o singulariza. Ele materializa com cheiro a carne queimada as palavras que amiúde escutamos e lemos, em distendidas conversas de café no trabalho, em jocosos comentários jornalísticos que se permitem dar a volta aos discursos progressistas como se estes já estivessem superados pola história, ou em nojentas mensagens nos foros de grilos da Internet, incluído este portal. Embora as palavras não causem o mundo, há quem diga, de ópticas diversas (Teun Van Dijk, , Ruth Wodak, Noam Chomsky, George Lakoff, Naomi Klein), que elas abrem as portas aos actos mais brutais. Ou que, polo menos, a relação entre actos, ideias e palavras é densa, e merece ser examinada. Localizemos onde localizarmos a fonte do assassínio (na cognição, nos discursos, nas relações materiais, em todos estes lugares), o facto é que a misoginia violenta, o classismo e o racismo proliferam cá e lá disfarçados de crítica pós-crítica, como se hoje em dia ser inteligente consistisse em, torpemente, esforçar-se por ir além dos discursos da igualdade. E os ultradireitistas do sociodarwinismo liberal esgrimem estúpidas etiquetas acusatórias, como a de “buenismo”, com que pretendem conjurar o seu monstruoso modelo económico e social, recriminando às vozes críticas de que estão a lamentar-se inutilmente. De que não vale a pena gritar. De que colocar-se eticamente apenas de um lado da geometria da dominação social é outra forma de paternalismo, porque (supõem os liberais) a glória da sofisticação na análise é mais importante. Já sabemos: para eles, é a pretensa sofisticação, não a crítica ética, que confere esse triste brilho fálico que procuram. Porque, afinal, sempre haverá mulheres pobres, e sempre haverá quem as mate. Afinal, algo teria feito a vítima. Afinal, os homens também são vítimas. Afinal, as mortas também são culpáveis.

Esse falso cepticismo, esse cinismo, é nazismo em estado puro. Ele proclama a supremacia dos corpos (masculino contra feminino, rico contra pobre, “branco” contra “preto”, “guapo” contra “feio”, “macho” contra “afeminado”), distorce o sentido da diferença, e glorifica a desigualdade económica e social a apresentá-la como uma insuperável evidência histórica. Também os três assassinos de Barcelona faziam piadas xenófobas, classistas, misóginas e homófobas nas suas conversas quotidianas. Faziam-nas como se aqui não se passasse nada, como se houvesse que rir sempre as graças dos nazis de qualquer origem, as que lemos amiúde cá e lá. Daí a assassinatos como o de Rosario Endrinal só há um par de passos. Hitler começou com palavras deglutíveis para a sua sociedade. Ser nazi não é só levar uma esvástica tatuada no peito: é também não ter mais nação nem mais língua do que um ódio de macho amargurado contra o poder da diferença, um projecto de extermínio. Nazis fora da História, já.

Hospital do Reino

Cheira a hospital. Nos arrabaldes da Espanha cheira a hospital sujo, barato, de corredores onde sobrevivem durante décadas os mesmos eivados. A luz dos hospitais de urgências é sempre cansa, mais amarela, incapaz de chegar até ao final do percorrido. As ruas da Espanha são os corredores deste hospital barato: vencidos prédios provisórios onde ardem de frio os refugiados. No último dia do ano cheira a esse formol usado dos hospitais de campanha, que são sempre os desta guerra. E os cirurgiãos percorrem rápido os corredores a amputarem velhas mãos que já não trabalham, a alimentarem com elas os distantes cemitérios, sempre distantes da terra onde nascera o corpo. Os uniformes dos cirurgiãos e os dos soldados, e os dos capatazes, e os dos catedráticos, e os dos financeiros, e os dos generais, são todos iguais sob a luz negra da pobreza. E os uniformes correm entre as salas de urgência deste hospital que é um reino em sombras. A luz da Espanha é um mito. Os eivados e idosos aguardam nas beirarruas da metrópole, e os soldados baixam das ambulâncias e amputam as mãos e a língua, como então, como sempre, como sempre que existe um antigo hospital de campanha que é um estado em ruínas. E os cirurgiãos botam os restos amputados no calabouço ou no fundo das usinas, dia e noite, noite sem dia nos camarotes de urgência. E os velhos pervagam polas ruas do hospital com a esmola de poucas moedas enrugadas, em irregulares batas sem lavar, e as mães solitárias prematuramente mirradas rebuscam no lixo urbano restos de órgãos para comerem na última noite do ano, como se acabasse o mundo entre as bombas que continuam a cair. Cheira a hospital em guerra, e é difícil afastar esta tenra náusea constante da consciência. De olhos estranhamente abertos polo sono, nos corredores deste hospital que é a Espanha procuramos com ânsia sempre os corpos familiares, os eivados nossos, a quem levarmos da mão fria respirando a sua pele que cheira a leite azedo até a uma tumba designada para deixarmos lugar a mais doentes, a mais velhos eivados, com uma miserável moeda do reino na algibeira da lenta bata sem lavar. E cada ano recomeça o ciclo, cada ano refornecem-se cárceres e obscuras usinas e hospitais do reino, tanta carne, tanta devoração oculta por proclamas. Cheira infinitamente a Espanha, a matadouro.

A rapidez do Discurso

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Em 48 horas, a Guardia Civil espanhola deteve dez membros da Assembleia da Mocidade Independentista vulnerando locais sociais de base, os detidos e detidas foram acusados de figuras estranhas, os jornais publicaram nomes e fotografias, as rádios arejaram análises e entrevistas, os políticos fizeram declarações das quais não se arrependerão, a web da AMI foi sequestrada pola Guardia Civil, outras foram obstaculizadas (como fechar o microfone a um orador; como faz a Radio Martí dos EUA interferindo as emissoras cubanas), a Internet e os correios electrónicos encheram-se de notícias, comunicados e protestos, houve concentrações, cartazes, panfletos, os dez detidos foram libertados provisoriamente, as rádios anunciaram-no sucintamente, e hoje é Quarta-Feira e continuam as nuvens. A rapidez do Discurso, que é também acção, ultrapassa a medida humana do tempo necessário para reflectir sobre os significados. Campanha político-policial-mediática, cortina de fumo diante do processo 18/98 do juiz Garzón, criminalização do nacionalismo, interferência nos processos de reforma estatutária, criação de fissuras no crescente soberanismo galego, em definitivo alti-baixos emocionais nesta versão distorcida da Política a que o Reino e ocidente nos têm habituados. Táctica deliberada, improvisação ou erro, já ninguém o sabe. Há tempo que o determinismo histórico morreu. Mas os factos e os efeitos estão aí, e não deveriam minimizar-se nem, muito menos, ridiculizar-se. Seria tentação qualificar a “Operación Castiñeira”, com Ñ espanhol, de absurdo fiasco. Se assim fizermos, estaríamos absorvendo (mais uma vez) o discurso hegemónico sobre a necessária Seriedade das forças da ordem: Olha aí, a polícia espanhola nem deter sabe, e são os salvadores juízes os que por fim situam as cousas no seu ponto, pois não há tais indícios de “terrorismo”, que alívio. Até Nós-UP se congratula da libertação dos detidos, como se esta libertação indicasse liberdade. Calculo que ré-encontrar companheiros é sempre gratificante, mas Madrid não é o único exílio. Esta ré-legitimação do sistema judicial espanhol pode ser calculada, pode não sê-lo. Em todo o caso, a arbitrariedade no disciplinamento foi sempre uma das características políticas do fascismo. Literalmente, do fascismo. Com Franco nunca se sabia quem podia ser detido ou não, nem por quê. Guantánamo não é apenas um reino remoto, mas uma ordem mental. O meu telemóvel pode estar em lista negra ou intervido, e eu sei por que facto trivial. O teu também. Não me preocupo grandemente, mas não estou habituado a dar as chaves das minhas gavetas a um estranho de uniforme. A imunidade do corpo, que é a nossa mente, onde reside a gloriosa Liberdade de Expressão, é já assunto do passado. E nós, a vê-las vir, porque os números eleitorais já nos cegam a necessária lucidez visionária. Sim, visionária (espero pacientemente os insultos), porque, chegados a este nível de cegueira, sermos visionários consiste simplesmente em vermos exactamente o que existe: uns empregados do Estado com passa-montanhas irrompem na sagrada propriedade privada a roubarem papéis, computadores e dinheiro. Levam dez pessoas para Madrid sem o seu consentimento. Acusam-nas de fazer cousas, em linguagens que os detidos talvez nem compreendam: a noção de “delito” remete para uma ordem total compartilhada, e assumir a noção pressupõe inscrever-se voluntariamente nessa ordem. Não se pode exigir que a mente do Reino entre na mente da AMI, é excessivo. Até os ultraliberais sabem intimamente isto, embora amiúde ajam como polícias. O que se pode exigir, sim, é que a arma do polícia não me mate, porque eu não pedi ingresso nesta guerra, neste tipo de guerra. Nem que a bomba de gasolina estoure no teu nariz, porque tu não pediste entrar neste tipo de guerra. Claro que somos também culpados, mas este tipo de guerra não se merece. Mas, que fazer, se o terror é semeado ocultamente, polos bispos, contra uma infância forçosa em cárceres educativos teocráticos. Que fazer se o terror adquire mais tarde a máscara de uma bomba de fósforo branco que monstruosamente abrasou corpos, de outra bomba que felizmente não cortou a carne, ou de um sequestro legal na manhã cinzenta de Compostela. Tudo é o mesmo terror, senhores polícias: não foram as vítimas quem inventaram as bombas. O Modelo foi criado por vós, e ainda vos funciona. Parabéns, tristes parabéns: bem sabedes que isto não é só um telefilme. Por isso, desde a distância do Discurso, eu creio compreender o que é um ataque físico de terror, deixar de respirar, e intuo que Maria A. nunca o perdoará. Porque ainda resta futuro, e exércitos de vários lados quererão forjar mais cicatrizes para medalhas. E a gente continuará a sofrer um excesso de abnegados funcionários da bala, heróis, salvapátrias. Saber isto não ajuda a compreender-nos politicamente, mas é quase o único que podemos constatar. Em toda lógica, daí à soberania da mente deveria restar pouco. Mas, alguém confia nesta frase?