As filhas da puta e as filhas do rei

     Há muitos anos, quando eu era criança e adolescente, no prédio antigo onde morava havia uma porteira, uma mulher maior muito miúda, viúva, e às vezes não muito simpática a quem chamarei Caridad. Ocupava, no baixo interior, uma vivenda pequena e bastante obscura de um par de quartos de chão de azulejo, cozinha e banho, a custo da comunidade de vizinhos, além de receber um soldo. Entre as suas tarefas estava manter a limpeza do formoso edifício, dar algum recado ou recolher algum envio, prender a caldeira comunal de carvão para a calefação central, e, singularmente, salvar-nos dos não infrequentes atascos do elevador Schneider. Quando ficava parado entre pisos e entre paredes, talvez tocássemos um alarme que não sei se soava (se marchava a luz sem dúvida não), mas o mais efetivo era simplesmente berrar “Ascensoooor!” até que Caridad escutava, subia sete andares polas escadas, e dava-lhe com esforço a uma enorme manivela manual para ascender a caixa do elevador até a altura dum piso onde se pudessem abrir as portas. Depois pendurava na porta do ascensor o sucinto cartaz NO FUNCIONA, mas entre aspas, isto é: “NO FUNCIONA”. Essa foi a minha primeira exposição ao “uso” “gratuíto” das “aspas” para enfatizar “qualquer” “cousa”, que tanto floriu e ainda perdura.

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E por que não MAIS independentismo, precisamente?
 Réstia de perguntas à esquerda “não independentista”

     Por que não a independência da Galiza? Qual é o problema da autoorganização da “gente” a todos os níveis? Qual é o problema duma ordem jurídica, do grau de formalização que for, que permita formas económicas e sociais emancipatórias próprias (p. ex. usufruto em mão-comum, democracia de base, economias sustentáveis, anti-extrativismo, soberania energética…)?  Onde está escrito que a pertença a um quadro jurídico superior (Estado Espanhol, Europa) permita mais facilmente a emancipação e a igualdade? Qual é o problema da articulação duma Galiza independente com outros âmbitos auto-determinados, da Península Ibérica ou do mundo?  E qual é a necessidade dum governo de ordem superior, sobretudo quando lutamos por uma sociedade tão diferente que esses governos mais amplos (militarizados, burocratizados) só poderiam ser um atranco?  Que eiva histórica (ou genética?) têm as galegas e galegos que lhes impediria avançar na auto-consciência do independentismo solidário em lugar da crescente imersão num falacioso “não-nacionalismo” que só é a cara eleitoral-mercantil do nacionalismo espanhol?  E quem diz (onde está escrito) que para reclamar essa independência seja obrigatório professar o nacionalismo ideológico (e muito menos etnicista, essencialista) como máxima forma de identificação coletiva?  Porque, onde estão as fronteiras entre a autogestão e democracia de base e a independência nacional/coletiva?

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 Réstia de perguntas à esquerda “não independentista””

O Trans e o Reint: Manifesto Reintrans

No Portal Galego da Língua

“Nós, de verdade, unicamente temos
a palavra. Só a palavra verdadeira
pode traduzir a fecha
e insondável soidade do nosso ser”.

Manuel Maria, A luz ressuscitada

     No pensamento normativo dominante, muitas reivindicações de direitos identitários ou sociais (os económicos decretam-se inexistentes) são construídas como veleidades, caprichos que só uma generosa “tolerância” do sistema permitirá honrar e defender… ou não, porque onde manda o material, o reconhecimento cultural é discricionário. O casamento entre pessoas de chamado “mesmo sexo” (esse atavismo), por exemplo, é ainda muito limitadamente reconhecido, numa altura em que já crescem mundialmente as lutas por uma concepção das identidades de género como algo irredutível a categorias funcionais, e muito menos biológicas. No pensamento normativo dominante, ainda não se concebe que a biologia é apenas um dos aparelhos em que os humanos refugiamos a nossa complexidade, e que a descrição “homem com pénis” é exatamente tão trivial como “mulher transgénero com pénis”, por exemplo, sem entrar-nos na trivialidade de cada uma das subetiquetas componentes (“homem”, “mulher”). O estado de Carolina do Norte nos EUA aprovou recentemente legislação aberrante (a lei HB 2) que proíbe que pessoas chamadas transgénero possam utilizar as casas de banho correspondentes às etiquetas do género com que se sentem identificadas. Para evitar tal blasfémia (uma transmulher urinando porta com porta junto a uma cismulher!), não é claro se aquele estado instalará nas entradas das casas de banhos detetores de pénis e vaginas marca ACME. O governo federal EUA já interpôs uma demanda contra esta legislação troglodita e, além, contraditória até para as bíblias de que provavelmente emergeu (imagine-se um urinário para homens onde de súbito irrompa uma convencionalmente feminina transmulher-com-pénis a urinar líquidos idênticos aos dos cisvarões-com-pénis; calcula-se que, logo que mostre o pipi, já acreditará documentalmente que está a cumprir a lei e não será expulsa). O absurdo desta lei só convencerá, como costuma acontecer, aqueles cárteles ideológicos que sempre têm a perder com o progresso humano no caminho da libertação: as famílias binaristas alicerçadas simultaneamente na divisão cromosómica do trabalho e das identidades, na naturalização duma interpretação simplista da concorrência darwiniana, e — portanto — na concepção de que a selvagem ordem económica surge também “naturalmente” duma “natureza (bis) humana” cujos atributos exatos, na sua inerente contradição (os humanos amamo-nos e matamo-nos, até simultaneamente), curiosamente nunca conseguem explicar.
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Quem Possui a História?: 1300 Anos, 44 Gerações

Dom Felipe Juan Pablo Alfonso de Todos los Santos de Borbón y Grecia (1): é filho de Sofía Margarita Biktoria Freideriki tis Elládas e de Juan Carlos I Alfonso de Borbón y Borbón (2), filho de María de las Mercedes Cristina de Borbón y Orleáns e de Juan Carlos de Borbón y Battenberg (3), filho de Victoria Eugenie Julia Ena von Battenberg e de Alfonso XIII León de Borbón y Hasburgo (4), filho de Maria Christine Desideria Henriette von Österreich e de Alfonso XII Francisco de Borbón y Borbón (5), filho de Isabel II María de Borbón y Borbón e de Francisco de Asís María de Borbón y Borbón (6), filho de Luisa Carlota Maria Isabella di Borbone e de Francisco de Paula Antonio María de España (7), filho de Carlos IV Antonio Pascual de España e de Maria Luisa Teresa di Parma (8), filha de Louise Elisabeth de France e de Filippo de España (9), filho de Elisabeta Farnese e de Philippe V de France (10), filho de Louis de France e de Maria Anna Christine Victoria von Bayern (11), filha de Ferdinand Maria von Bayern e de Adélaida Enrichette Maria di Savoia (12), filha de Vittorio Amedeo I di Savoia e de Christine Marie de France (13), filha de Henri IV de France e de Maria del Medici (14), filha de Francesco I dei Medici e de Johanna von Österreich, (15) filha de Anna Jagiello e de Ferdinand I von Habsburg (16), filho de Philipp I von Habsburg e de Juana I d’Aragó (17), filha de Fernando II d’Aragó e de Isabel I de Castilla (18), filha de Isabel de Portugal e de Juan II de Castilla (19), filho de Enrique III de Castilla el Doliente e de Catherine of Lancaster (20), filha de John of Gaunt 1st Duke of Lancaster e de Constanza de Borgoña infanta de Castilla (21), filha de María de Padilla e de Pedro I de Castilla el Cruel (22), filho de Maria de Portugal e de Alfonso XI de Castilla el Justiciero (23), filho de Constança de Portugal e de Fernando IV de Castilla el Emplazado (24), filho de Beatriz von Schwaben e de Fernando III de Castilla el Santo (25), filho de Berenguela I de Castilla e de Alfonso IX de Leão (26), filho de Urraca de Portugal e Savoia e de Fernando II de Leão e Galiza, (27) filho de Berenguera de Barcelona infanta d’Aragó e de Alfonso VII de Leão el Emperador (28), filho de Raymond de Bourgogne e de Urraca I de Leão (29), filha de Constance de Bourgogne e de Alfonso VI de Leão el Bravo (30), filho de Sancha de Leão e de Fernando I de Leão el Magno (31), filho de Minadona de Castilla e de Sancho Garcés III de Pamplona el Mayor (32), filho de Jimena Fernández e de García Sánchez II de Pamplona el Temblón (33), filho de Urraca Fernández e de Sancho Garcés II de Pamplona (34), filho de Andregoto Galíndez condessa d’Aragó e de García Sánchez I de Pamplona (35), filho de Sancho Garcés I de Pamplona e de Toda Aznárez reina de Pamplona (36), filha de Aznar Sánchez de Larraún conde d’Aragó e de Onneca Fortúnez (37), filha de Fortún Garcés el Tuerto e de Awriya ibn Lubb (38), filha de Ayab Al-Bilatiyya e de Lubb ibn Musa (39), filho de Assona Íñiguez e de Musa ibn Musa ibn Fortun al Qasaw (40), filho de Onecca e de Musa ibn Fortún (41), filho por uma parte de Fortún ibn Qasi (42), filho do conde hispanorromano ou visigodo Casius (43), convertido ao islamismo, que morreu em 715, e por outra de Asima bint Abd al-Aziz (42), filha de Egilona (viúva do rei Rodrigo) e de Abd al-Aziz ibn Musa (43), filho de Musa ibn Nusair (44), caudilho militar muçulmano, que participou na invasão da Hispânia visigoda em 712.

1300 anos, 44 gerações.

María Dolores, limpadora das defecações diárias de dom Felipe nas casas de banho da sua mansão: é filha de Dalia e de Miguel, campesinos do Equador, filhos de campesinos de Equador, netos e bisnetos de campesinos de Equador, de nomes e origens desconhecidos.

Alguém acredita que os proprietários da História vão abandoná-la?

 

Capa censurada da revista El Jueves. Uma primeira distribuição de 60000 exemplares foi retirada pola publicação, e destruída. A capa foi substituída por uma caricatura do político Pablo Iglesias. O debuxante da vinheta do rei demitiu-se de El Jueves.

 

As decisões políticas e a morte das pessoas

No portal de EDiSo – Associação de Estudos sobre Discurso e Sociedade

Os factos são cruéis, e provavelmente conhecidos. Mas, polo argumento a desenvolver, e com respeito, devem ser lembrados:

  1. Em 24 de julho de 2013, um trem rápido da RENFE (Red Nacional de Ferrocarriles Españoles) procedente de Ourense, na Galiza, descarrilou numa curva perto da entrada à capital, Santiago de Compostela. Morreram, até hoje, 79 pessoas, e dezenas delas ficaram feridas.
  2. Tudo indica que o comboio viajava no momento do acidente a uns 190 km/h numa zona onde devia circular a 80 km/h.
  3. Tudo indica que o trecho da curva e alguns quilómetros prévios não dispunham de nenhum de dous possíveis sistemas de segurança avançados (ERTMS e ASFA Digital), qualquer dos quais teria detido o comboio ou reduzido a sua velocidade automaticamente, evitando o acidente. O sistema de segurança utilizado era ASFA Analógico, que deixa o controlo da velocidade exclusivamente nas mãos do maquinista (“O tramo do accidente tiña o sistema de seguridade analóxico de hai medio século”, Praza Pública, 28 de julho de 2013; recuperado em 28-07-2013, 20 h. 43 m.; “El tramo del accidente de Santiago tenía el sistema de seguridad analógico de hace medio siglo”, eldiario.es, 28 de julho de 2013; recuperado em 28-07-2013, 20 h. 44 m.)
  4. O resto da via rápida Madrid – Compostela dispõe de algum dos sistemas avançados de controlo.

Em resumo, nalguma altura da construção desse trecho de via houve uma decisão, um ato discursivo dalgum tipo, no sentido de não instalar nenhum dos sistemas avançados de controlo automático. Algumas informações apontam — mas não está documentado — que, com efeito, se solicitara a instalação destes sistemas de segurança. Se assim for, qualquer decisão posterior seria resposta a esta petição. Seja como for, estas circunstâncias não mudam o essencial da centralidade do ato de decisão. Por feito ou por omissão, houve um ato ou série de atos discursivos (orais, escritos e/ou formulaicos) que estabeleciam ou mantinham um sistema de controlo ineficiente, o ASFA Analógico. Mas no regime político da economia e da técnica, qualquer decisão técnica ou económica e também política. E, na cadeia de discurso em que consiste a vida política, os atos engranzam-se com circunstâncias que — procuraremos ver — não são alheias a um discurso que é amiúde concebido, erradamente, como realização estéril, asséptica e simplesmente maquinal de “significados”.

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Como Apostatar de NCG (uma crónica)

Em Diário Liberdade Em MundoGaliza Em GalizaLivre

Acabei de exercer o meu direito, reconhecido constitucionalmente, de deixar de pertencer à igreja NCG. Ainda sou membro de outras (bancos, companhias telefónicas, multinacionais informáticas, cárteis da desinformação), mas é difícil abandonar todas as fés abruptamente sem algumas recompensas. A minha apostasia, além, foi delegada, também em nome da minha companheira: era uma conta nossa da igreja NCG que mantínhamos fielmente durante décadas para ir alimentando as indemnizações milionárias dos nossos hierarcas. Agora que estas já foram cobradas, a nossa missão está cumprida.
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A intensa forma da vitória

Em Diário Liberdade Em MundoGaliza

Deve ser assim, tal como o instruíam os maiores na nossa mocidade, quando se forma o primeiro pensamento político pola observação elementar da injustiça e da miséria. Deveu ser sempre assim e não o sabíamos, quando nos diziam: “És jovem. Está bem que lutes polos teus ideais enquanto tenhas energia. Mas saberás que o mundo não é assim. A Revolta que imaginas não existe. Algo ficará do que fazes, mas a mudança é lenta. Logo instaura-se em ti o realismo. Claro que sim, luta agora polo que julgues justo. Mas não creias que o conseguirás em vida, ou sofrerás mais”.

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Galiza, coletivo de base

Em Diário Liberdade Em Portal Galego da Língua Em MundoGaliza Em Xornal

Qual é a diferença, em termos da subjugação das vontades populares ao poder económico, militar e político, entre os coletivos de acampamentos nas cidades e essoutro coletivo que chamamos “as/os galegas/os”?  Em que medida é coerente ou taticamente útil pretender separar as formas e naturezas das vontades que são igualmente silenciadas polos mesmos poderes?  Combate-se em abstrato contra “os bancos” e contra “os políticos” como classe, ou contra os nossos bancos e os “nossos” políticos, ou os que são impostos como “nossos”?

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O “bajón” das línguas

“Estaba yo en un pub [en Coruña] … Y de repente le digo [al chico]: ‘Ah, no sabía que eras el primo de Tal’. Y me dice: ‘Sim, sou o primo de Tal’. Y digo yo (‘¡Habla gallego!’). Y me dio un bajón…”.

Marta López, concursante do Gran Hermano espanhol, 2011.

Essa tarde fresca de sábado convidei o meu amigo X. a tomar o cafezinho de sobremesa no meu andar no centro da cidade. Falámos, como outras vezes, de perspetivas de trabalho: A ele ofereciam-lhe possibilidades de melhora e traslado, mas não sabia se ir para Compostela, para Porto ou para São Paulo; eu queria fazer uma estadia de investigação fora; o meu colega G.F. da Universidade Eduardo Mondlane de Moçambique trabalhava no mesmo campo. Talvez aí.

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Um mês sem Vieiros

Em MundoGaliza • No Xornal de Galicia

Às vezes, na rotina dos dedos e da mente que repetem velhas ações, como se a vida nos levasse a nós e não o contrário, diante deste ecrã que me visita, clico com antecipação na frase inscrita no meu computador que conduz a Vieiros, a esses velhos vieiros que ocupámos. E aí chego, e aí permanece o seu daguerrotipo, intacto desde o 24 de julho de 2010, detido nas últimas palavras coletivas. Observo-o e releio segmentos com nostalgia, admito-o. Ou talvez o confesse. Porque –pergunto-me–, por acaso deveria sentir um inútil pudor ideológico por esta saudade ao saber que Vieiros não era, apesar de tudo, o meu projeto? Deveria procurar entender alegadas razões políticas que, dalguma maneira sempre maléfica na nossa terra, justificariam o seu desaparecimento? Até onde deveria esticar um purismo sobre não sei o quê, que me resulta difícil? Nem sei, nem sei se deveria. Apenas sei que admito –talvez confesse– a nostalgia. E pergunto-me, isso sim, sempre, pergunto-me se o mesmo amplo laio grupal se daria se, por motivos comparáveis (afinal, a força do material), nalguma altura tivesse que desaparecer alguma outra velha companhia nossa, também fundamental na sua parcela e no seu alvo, como o Portal Galego da Língua. Calculo que não haveria tal lamento grupal, porque um número grande de pessoas situaria uma dada lealdade por cima da manifesta importância social do Portal. Eu nego-me a tal exercício especular com a morte certa de Vieiros, que, apesar de tudo, repito, não era de todo o meu projeto.

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