A Epistemologia do Norte de Boaventura de Sousa Santos na Corunha

No Portal Galego da Língua

O célebre sociólogo Boaventura de Sousa Santos, do Centro de Estudos Sociais de Coimbra, vem à Universidade da Corunha falar das Epistemologias do Sul e o futuro da universidade, com motivo do 25 aniversário da fundação da UDC. É um importante ato convidado pola universidade, com os poucos fundos que nos restam e que a atual Reitoria procura distribuir com siso, sobretudo para que o capital do Norte não possa botar mais pessoal trabalhador. Dentro dumas semanas virá, dentro da mesma série de palestras, por exemplo, outro célebre varão intelectual e mediático, Vicenç Navarro. Continue reading “A Epistemologia do Norte de Boaventura de Sousa Santos na Corunha”

Ou autodeterminação e socialização também linguísticas ou não há nada que fazer

Publicado em Novas da Galiza 145, pp. 120-121 ★ No Portal Galego da Língua

1. A diagnose

Periodicamente repete-se na Galiza a pergunta se a “normalización lingüística” foi um fracasso ou um sucesso. Desta vez o motivo parecem ser os novos dados do Instituto Galego de Estatística que podem ler-se como uma indicação de que por primeira vez o galego é minoritário entre setores sociais como a mocidade.

A pergunta tem tipicamente duas respostas, baseadas na bivalência da própria expressão “normalización lingüística”, que está simultaneamente em galego da RAG e em espanhol: (1) A “normalización” foi um fracasso porque, sobretudo, o espanholismo do PP, a grande besta negra, a impediu, e os outros partidos também não fizeram o suficiente. (2) Noutro sentido (ou não), diz-se que é um sucesso porque, como projeto de elite, sempre se tratou da “normalización” definitiva do espanhol na Galiza, não do galego, e esse plano segue-se ponto por ponto. Acho que esta é a tese  (ou polo menos a ênfase) mais estendida no reintegracionismo no geral.

A minha particular resposta não é nem uma nem a outra como tais. Julgo que devemos considerar mais em detalhe certas condições de possibilidade atuais que poderiam permitir ou impedir o que eu prefiro chamar a naturalização do galego na sociedade.

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As axilas de Bourdieu

Há uns minutos tentava explicar à minha companheira de quase toda a vida (pobre ela) que eu deveria escrever um texto sério sobre Bourdieu, o meu pensador favorito, o que nos deixou tantas cousas sobre as relações entre língua (e linguagem, e discurso) e o seus valores e “capitais” associados, e a apropriação destes valores polas elites, e a sua conversão destes valores nas sociedades, que explicou tanta cousa como por que se estão a perder as línguas que nos constituem, simplesmente por uma equívoca pulsão de sermos humanos mais perfeitos ao falarmos línguas superiores. Mas dizia à minha companheira que, quando imaginava a custosa tarefa de reunir as minhas notas e ideias cada vez mais fragmentadas pola trivialidade dos telejornais em que consiste a Internet, por exemplo, assaltava-me uma sensação picante nas axilas, algo como uma constatação racional de que, com efeito, tenho axilas (tribulação inexistente quando tomo café ou vejo um filme), ou como se estivesse a produzir inconscientemente sustâncias inodoras diante dum cão ameaçador que não me vai travar ainda que eu quisera para ser herói de mim mesmo, isto é, um picor que associo ao desodorante natural maori de alúmen, pedra de alúmen, pedra da loucura, que vai instalando o Alzheimer progressivo (o ordinário, não o de Adolfo Suárez) a partir dos 50 de idade. Em fim, resumo, escrever algo sério sobre Bourdieu resulta-me impossível porque me assaltam as axilas, as minhas, não as dele, e portanto este texto não é sobre as axilas de Bourdieu mas sobre as próprias, embora um título assim de sincero, “As minhas axilas”, procedente de alguém habituado a oferecer verdadeiros tijolos, provavelmente convocasse ainda mais riso do que este texto.
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A Crise do Linguotariado

No Portal Galego da Língua

Na Fábrica da Lingua, propriedade do Estado, trabalharam durante quarenta anos centenas de pessoas. Cada manhã recolhiam pedaços irregulares de fala do chão milenário, faziam simétricos tijolinhos com esta matéria, distribuíam-nos entre elas, e cada tarde consumiam-nos elas mesmas nas casas, nas escolas, e nalguns atos públicos. Os tijolinhos, organicamente, defecavam-se, e pouco tempo depois encontravam-se de novo no chão da terra na forma de pedaços irregulares que havia que voltar a recolher e processar. Durante quarenta anos.

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Quarenta Anos na Fábrica da Língua

No Portal Galego da Língua No Praza Pública

Desde há aproximadamente 40 anos se vem construindo na Galiza uma versão (oral, escrita e funcional) da língua do país que geralmente está naturalizada já como o “galego oficial” (paralelamente, não esqueçamos, desde há um pouco menos se vem construindo e praticando a versão “reintegracionista”). As explicações de por que “se” optou por esse caminho (e deixo o “se” deliberadamente ambíguo por enquanto), desde e com as instituições, são variadas, mas entram no geral em três grandes blocos de critérios: fidelidade à tradição escrita, fidelidade à fala (e — dizem que portanto — maior aceitação social), e facilidade de uso. Não é objeto deste escrito comentar os critérios anteriores, já muito debatidos. O facto inegável é que, nesta altura, essa versão da língua, que chamarei o “galego-RAG”, está amplamente reconhecida (na medida em que pode está-lo uma língua em processo de extinção), sem que isto empeça que a visão alternativa (e simbólica e politicamente contrária), o “reintegracionismo”, esteja também naturalizada noutros grupos de pessoa possivelmente crescentes.

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Descapitalizar a Língua e o Discurso: sobre o galego, o valor e o capital

No Portal Galego da Língua No Diário Liberdade

Em 1987 eu estava a fazer a tese de doutoramento numa universidade dos EUA. Tinha 28 anos, e vinha periodicamente a estadias na Galiza para a pesquisa. A tese, sobre o que chamei “a institucionalização do galego”, procurou descrever os começos da introdução estruturada do galego no estado e no poder como objeto de legislação, como elemento de ideologia, como recurso apropriável e como prática de uso. A investigação — é significativo indicar para os argumentos posteriores — foi subsidiada repetidamente, ora pola universidade americana, ora por capítulos do ministério espanhol de negócios estrangeiros destinados à colaboração científica com os EUA.

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De Leis e Línguas: a irracionalidade do jogo

No Portal Galego da Língua

A decisão do Tribunal Superior de Xustiza de Galicia sobre os vários recursos (da Mesa pola Normalización Lingüística, da CIG e doutras entidades) contra o Decreto de Pluringüismo do governo de Feijoo, e as interpretações públicas sobre esta sentença, são muito reveladoras do papel do discurso científico sobre a língua na Galiza, e das constrições que operam sobre a sua aplicabilidade à política. Tanto o Decreto quanto a sentença situam o trabalho sociolinguístico como uma excrescência subordinada à política do partido no governo, e fazem duvidar, verdadeiramente, de que no quadro jurídico desta Galiza se possa articular jamais a racionalidade científica com a ação política.

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Entrevista: “A mercantilização da língua continua a ser mais uma amostra do carácter invasivo do valor”

Em GalizaLivre, 11 de janeiro de 2011 • Em Encontro Irmandiño

Recentemente seguiste de perto o debate sobre política linguística entre sectores vinculados à UPG e outros ao IGEA ou o quintanismo. Que balanço tiras das suas propostas?

Na verdade, eu diria que houve e há mais polémica (inclusive pessoal, agre, insultante) do que debate de fundo sobre qualquer nova proposta realizável de política linguística.  E também não entram em jogo apenas esses dous setores mencionados, embora tenham destacado, polas confluências de posições intelectuais, académicas e políticas, num país como o nosso onde há tanta sobreposição de redes dos campos diferentes.  Digamos que a “conversa” a várias vozes continua, mas não acho que se esteja a tirar muito em limpo.  À partida, eu não concordo com a necessidade dum “novo discurso sobre a língua” por esses vieiros, e muito menos com base no deficiente texto do IGEA, como tenho criticado em três textos recentes.  Mas devemos entender que nesta tentativa de revezamento do “discurso”, em contra do que se afirma, há uma parte de operação política, também apoiada mediaticamente, que talvez chegue a ter um sucesso parcial.

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A quadratura da língua

Publicado em Xornal • Em Carta Xeométrica

A polémica atual a raiz do documento de IGEA propondo o “bilinguismo restitutivo” como eixo duma política planificadora tem duas dimensões interrelacionadas: O confronto ideológico intrapartidário e as suas ramificações interpartidárias em termos de alianças tácticas, e as suas bases técnicas e sociolinguísticas, que são cruciais para qualquer proposta galeguizadora que se mantenha.  Tanto o documento original quanto as suas defesas mais elaboradas polo próprio autor principal, Henrique Monteagudo, carecem na minha opinião da fundamentação suficiente que sustenha o seguinte: que, para a necessária galeguização das condutas linguísticas do país, o mais apropriado é focar-se também na competência em castelhano (“bilinguismo”).  Esta ênfase nas duas línguas e a concorrente confusão entre o estado de cousas (“bilinguismo social desigual”, sem dúvida) e a meta a alcançar não é trivial: é a mesma contida na Lei de Normalización Lingüística, a implementada na filosofia de introdução do galego no sistema educativo como matéria instrumental, e a de todas as políticas de subsídio e “defesa” (não de promoção) dos usos do galego que tiveram um efeito tão negativo nestas décadas.

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Monolinguismo, bilinguismo, hegemonia: Não são só palavras

No Portal Galego da Língua • Em MundoGaliza • Em Diário Liberdade • Em Encontro Irmandiño • Em  Carta Xeométrica

Despersonalizar é provavelmente a melhor disposição para compreendermos um problema tão complexo como a atual crise da língua na Galiza. A troca de textos e mensagens recentes nas publicações periódicas do país e na Internet a respeito dum recente texto de opinião do IGEA (Instituto Galego de Estudos Europeos e Autonómicos) sobre o futuro do idioma insiste amiúde em questões muito marginais, incluindo um questionamento recíproco, multilateral, do saber e das capacidades de análise dos participantes. Contrariamente a esta atitude, vou assumir que qualquer pessoa que se debruça sobre uma questão social mas também técnica e perde parte do seu valioso tempo em ler textos longos (ou longuíssimos, como este) possui suficiente conhecimento e raciocínio  para não deixar-se enguedelhar no trivial questionamento do conhecimento e do raciocínio doutrem.

Três são as dimensões que eu destacaria duma polémica –antes que debate de fundo– que corre o risco de produzir vazia inflação discursiva.  Mas, antes, um posicionamento: O meu objetivo não é contribuir para debater polo miúdo os argumentos de fundo do documento do IGEA, pois na minha opinião não inaugura qualquer discurso novo, e apenas introduz uma expressão que pretende central (“bilinguismo restitutivo”), traduzível de muitas maneiras a outras expressões. O meu objetivo é, precisamente, contribuir para que a expressão não se centralize nem no debate público nem no ativismo sobre a língua, polo seu potencial negativo para o futuro da língua, que não começa nesse texto. E para isto, evidentemente, procurarei razoar desde o meu limitado conhecimento e desde a minha posição ideológica.  Os três aspetos que quisera comentar são: 1. A “despolitização” e “desnacionalização” da questão da língua.  2. A dinâmica “monolinguismo / bilinguismo / hegemonia social do galego”.    3. A articulação entre propostas de intervenção linguística e usos reais. Para isto, remito-me em ocasiões a documentos, manifestos e debates anteriores. Mas, confiando no bom funciomento do Google, escuso colar aqui por enquanto tantas referências a tantos textos. E, por mor da despersonalização dum claro sarilho de textos (não por mor da invisibilização de ninguém, nocivo protocolo habitual neste mundo), prefiro não citar qualquer pessoa, nem para bem, nem para regular, nem para mal.

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